A Fábrica

Está de luto esta Fábrica. Respirou movimento num século que já passou. Hoje, o único que sente é a voz de uns pássaros que encontraram um poiso na sua imensidão.

Ficou desventrada ao serem-lhe arrancados os engenhos criadores. As marcas? São grandes poços… secos.

Os nossos passos quebram o silêncio dos estilhaços de vidros que caíram das lâmpadas fluorescentes que iluminavam as salas sem sol.

Linhas coloridamente sóbrias, esquecidas em prateleiras, tiveram todo o tempo para ceder à sua força. Frágeis e silenciosas, continuam  abraçadas a rolos esperando, sem sentidos, os pontos esquecidos em padrões de tecidos resistentes, também estes, coloridamente sóbrios.

Espalhados estão os objetos, as folhas de papel, as pastas, os restos em metal, em plástico, em madeira… os restos de algo que teve a sua função na história.

As mãos que picavam o ponto todos os dias, as mãos que ajudaram a dobar as linhas, as mãos que ajudaram a transformar os fios de lã em tecidos, essas continuam vivas do lado de lá destas paredes e contam-nos histórias.

Os tecidos que ficaram retidos num espaço do tempo desta Fábrica jazem adormecidos no chão à espera de um resgate qualquer…

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a força da natureza

Como uma amiga disse e muito bem, este foi um sonho que criou raízes

poema de domingo

POEMA DE DOMINGO

Aos domingos as ruas estão desertas
e parecem mais largas.
Ausentaram-se os homens à procura
de outros novos cansaços que os descansem.
Seu livre arbítrio alegremente os força
a fazerem o mesmo que fizeram
os outros que foram fazer o que eles fazem.
E assim as ruas ficaram mais largas,
o ar mais limpo, o sol mais descoberto.
Ficaram os bêbados com mais espaço para trocarem as pernas
e espetarem o ventre e alargarem os braços
no amplexo de amor que só eles conhecem.
O olhar aberto às largas perspectivas
difunde-se e trespassa
os sucessivos, transparentes planos.

Um cão vadio sem pressas e sem medos
fareja o contentor tombado no passeio.

É domingo.
E aos domingos as árvores crescem na cidade,
e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se a cantar empoleirados nelas.
Tudo volta ao princípio.
E ao princípio o lixo do contentor cheira ao estrume das vacas
e o asfalto da rua corre sem sobressaltos por entre as pedras
levando consigo a imagem das flores amarelas do tojo,
enquanto o transeunte,
no deslumbramento do encontro inesperado,
eleva a mão e acena
para o passeio fronteiro onde não vai ninguém.

António Gedeão

guitarra querida

O ciclo

A Terra é quase redonda, gira sobre si própria num ciclo que demora aproximadamente 24 horas.

A Lua, redonda, leva cerca de 30 dias para completar o seu ciclo de fases. A Terra e a Lua giram à volta do Sol, cujo ciclo demora 365 dias.

Como seres humanos a nossa longa viagem talvez esteja prestes a fechar um ciclo. Da era primitiva à actual, a chamada pós moderna, passámos por experiências sem conta, cometemos erros sem conta, mas provavelmente necessários para conseguirmos chegar à Era da Consciência, ou seja à Era em que a Homem da Inovação Cientifico-Tecnológica e o Homem Comunitário coexistam e cresçam lado a lado, sustentavelmente. Quando chegarmos Aí talvez vejamos, finalmente, com clareza, que o Homem Primitivo, afinal não era o Primário, mas sim o Primordial.

Nesse futuro próximo será fantástico o Sol, a Lua e a Terra assistirem a esse fechar do ciclo num interior profundo, como se de um eclipse se tratasse ou, antes, como se uma força eclipsal atravessasse um sistema que nos interliga ao universo, de fora para dentro e que culminará no encontro entre o homem primordial e aquele que acaba de nascer.

E, depois, a viagem continua…

Numa tarde de sol e de neve

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Vidas do Mar

Esta fotografia, fui procurá-la para a olhar outra vez após ter ouvido hoje outra história dramática de pescadores que perderam a vida. Retirei da prateleira o livro “Mulheres do Meu País” de Maria Lamas, folheei as páginas até às mulheres do mar…voltaram a morrer homens no mar…Na legenda desta sua fotografia a autora conta assim: “Na praia do Furadouro, durante a tarde, quando se aproxima a hora de puxar as redes, as mulheres sentam-se na praia e esperam, abstractas, num remoer de pensamentos melancólicos ou deitando contas à vida. Algumas cedem ao entorpecimento natural do calor e adormecem sobre a areia. Tem destas paragens a vida inquieta da mulher do mar. Porém, o contraste das longas esperas, ociosas, quando a maré é calma, dão-lho as tempestades arrogantes, que põem em perigo a vida do seu homem e tantas vezes lho arrebatam para sempre.”

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