Esta vida de saltimbanco!!

Esta vida de andar a atender de terra em terra, tem os seus episódios cómicos.

Ontem à tarde cheguei a uma pequena vila, saí do carro, tranquei-o e fui colocar o lixo resultante do meu almoço no caixote dos resíduos domésticos, bonitinho, cor de prata. Escolhi logo o primeiro que fazia parte dum conjunto de três e não sei se  foi a lei da atracção, se foi a distração, mas, além de deitar fora o que devia, deitei fora o que não devia. A chave do carro deslizou, fugiu, escorregou entre os meus dedos, os mesmos que se esticaram para deixar cair os restos. Quando ouvi o som do encontro da chave com o vidro duma garrafa de compal exclamei: Aiiiiiiiiiiiiiiiii!! E agora? Vislumbrei o seu brilho lá no fundo e senti os meus pensamentos correndo, passando de assoalhada em assoalhada à procura daquela que poderia ser uma solução. Primeiro pensei, o meu braço não chega lá ao fundo, em segundo lugar, não cabia naquele pequeno buraco, portanto sozinha não conseguiria recuperar a chave. Fui aos serviços municipalizados, esperando obter ajuda dos senhores responsáveis pela recolha do lixo e contei à funcionária o que me tinha sucedido. Rimo-nos. Ela pegou prontamente no telefone para contactar alguém, mas só me poderiam ajudar depois de almoço. Eu voltei à zona da ilha ecológica com o objectivo de impedir que deitassem mais lixo naquele contentor para não me “sufocarem” a chave. Impedi uma senhora e ela obedeceu-me após a minha explicação. Mas…tive que ir dar uma volta, pois o sol estava muito quente ali. Quando voltei, já lá estavam dois senhores que perguntavam a um terceiro quem era a senhora que tinha deitado a chave no lixo. Eu levantei a mão e, tímidamente disse: fui eu. Os senhores olharam para mim durante uns segundos  e um deles quebrou o silêncio dizendo: pois, isso acontece…eu juntei os ombros às orelhas e, ri-me e, expliquei-me outra vez (já tinha decorado o meu pequeno discurso explicativo). Telefonaram para o condutor do camião do lixo, pois os caixotes tinham que ser içados com um cabo, o qual apareceu ao fim de cinco minutos. Lá emergiu, debaixo da terra, o caixote verde que guardava a minha chave. Com um ferro, remexeram terra, folhas e resíduos domésticos, para cá, para lá, novamente para cá, novamente para lá e nada da minha chave. Eu de olhos bem abertos, pouco me importei com a bicharada e o cheirete que por alí andavam livremente  (esta oportunidade, tinha sido a chave para a sua liberdade, da dos bichos!) Bem como assim não resultava, um dos senhores teve a ideia de despejar o caixote para uma carrinha de caixa aberta que ali estava. Ia sujar-lhe a carrinha mas ele, simpaticamente, disse que depois lhe mandava uma mangueirada para lavar o estrado de madeira. Dois senhores com uma forquilha cada um, começaram, depois do lixo previamente espalhado, a separar milimétricamente, cada folhinha, cada lixinho e apareceu a chave! Sujíssima de castanho, mas que se lixasse o quer que fosse. Segurei-a com um leço de papel, limpei-a e fui lavá-la à fonte. Agradeci muito! Mais do que uma vez! Pensei: toda esta disponibilidade só é possível numa vila do interior. Meu rico Portugal interior! Mas a minha tarde atribulada não acabou aqui. De seguida fui atender um grupo de senhores e, quando falava com eles, eu em pé e eles sentados, começo a sentir um bicho a morder-me nas costas. Começo a sacudi-lo discretamente, mas sem sucesso. Sinto-o subir para a minha omoplata, chegar ao ombro e começar a descer. Só pensava: Não! Isto não pode estar a acontecer! NÃO!………………..Resolvi acalmar-me e informar os senhores, com a maior naturalidade que consegui no momento, que tinha que sacudir um bicho que andava a passear debaixo da minha camisa e SACUDI-O! Vi-o saltar. Era castanho. Não reconheci a sua espécie. Fugiu rápidamente. Será que me acompanhou desde a ilha que ecológicamente guardava o lixo???? Ao fim do dia, quando contei tudo isto às minhas colegas uma disse-me: Vens lambida pela bicharada. Outra: Foi uma tarde cheia de “feses” (acho que em alentejano se escreve assim e significa”ralações”, “apoquentações”), mas o final foi feliz. Recuperei a chave e o bicho castanho foi à sua vida sem me deixar marcas da sua passagem.

Agora deixo-vos com um vídeo onde canta João Aguardela “esta vida de marinheiro”

Marília Ribeiro

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