Um passeio

 

Há um tempo que não me debruçava sobre este muro e não olhava por esta janela.

Hoje, imaginei-me lá naqueles lugares e tentei relembrar o que olhei noutros tempos.

Um amplo espaço instalou-se na minha memória, mas, com o tempo, foi sendo preenchido pelo rio com a sua cor prateada de princípio da manhã, pelo seu encontro com o mar e pelo o horizonte lá bem ao fundo, mas não perdido de vista, porque os olhos alcançam ajudados pelos sentidos da imaginação.

Passados uns minutos descansei os cotovelos, endireitando-me e olhei.

Olhei as pessoas desbravando caminho pelas calçadas já gastas, apressadamente, voltadas para sinais externos como as horas que passam sem que os homens as perdoem por passarem rápido de mais; o autocarro que chega e pára por uns minutos, aproveitando para descomprimir com um som de deslocação de ar e um cheiro a borracha queimada, o outro cheiro, o que se escapa repleto de CO2,  fica retido às portas das minhas narinas, pois sustenho a respiração para não o engolir; as fachadas pintadas e as esquecidas; o homem sentado, quase deitado no chão, perdido no tempo e sem esperança, com traços ainda bem desenhados no rosto, de forma quase perfeita, mas que ele quer apagar de forma descuidada, incomodando-me e aos outros que por ele passam, cegos, porque escondemos os olhos…a vendedora de castanhas; a florista de rua com um avental florido; o artista imóvel, vivendo um tempo diferente dos outros homens e mulheres que o olham, mas as crianças vêem… desejando ficar ali contando o tempo que ele resistiria ao tempo e, depois, com um grito de descoberta, poderem dizer mexeu-se! Cheirei o aroma do lodo que o rio se obriga a mostrar, porque ali sofre a influência da maré; Ouvi o som do antigo Cacilheiro, avisando os mais atrasados que ia partir, pesadamente… senti o cheiro da sua ferrugem que se colava às minhas mãos. Voltei a olhar os telhados cor de barro e as águas furtadas (pelos pombos); as belas janelas e as belas guarnições das varandas; a pedra talhada, outrora com a paciência do seu escultor; os azulejos, cuja palavra mãe lhes deu a cor, ainda embelezam muitas frontarias, ilustrando histórias da época que se misturam com as múltiplas histórias de alegrias e tristezas que se passaram, entretanto, lá por trás e que resultam, hoje, em histórias daquelas casas, daquelas ruas, daqueles quarteirões, daquela cidade, minha sempre querida Lisboa! Recordei, hoje, o meu professor de sociologia urbana o qual nos ensinou a olhar para além das “fachadas dos prédios”, esse além onde se desenrolam os fenómenos sociais urbanos.

Hoje voltei lá, a todos estes cenários que parecem, descritos assim, um monte de quadros que guardei numa sala da minha memória, aleatoriamente, sem qualquer preocupação de se darem bem, mas não é verdade! Os quadros organizaram-se e encontraram novos lugares, reorganizar-se-ão e reencontrarão novos lugares, porque o ar que vai entrando pela janela daquela sala não deixa que os quadros criem mofo e o sol oferece-me a claridade para serem olhados duma ou mais perspectivas à medida que o espaço entre o meu passado e o meu presente se vai tornando mais longínquo. É tal e qual como os textos que escrevo. Interpreto o que vejo e o que recordo olhando por um prisma, escrevo, depois volto cá, apago e reescrevo de acordo com outro prisma que entretanto descobri

Há um tempo que não me debruçava sobre este muro do miradouro de Santa Luzia e não olhava por esta janela, uma das janelas do Chapitô. São os dois espaços onde inspiro lisboa e…cheira bem!!

Marília Ribeiro