Opiniões

 

Recebi uma mensagem sobre o que pensa José António Saraiva sobre a crise. Durante o dia pensei várias vezes sobre o que li e passo a expôr, o que pensei, no final do seu comentário:

Crise nacional

“Creio que a maioria das pessoas ainda não percebeu bem esta crise – e os economistas não estão a saber explicá-la com clareza.

É verdade, como se tem dito, que há uma ‘crise nacional’ e uma ‘crise internacional’.

Mas, depois desta evidência, a confusão que por aí vai é enorme.

Comecemos pela crise portuguesa.

Trata-se de uma crise profundíssima, potenciada por três factos
capitais: o fim do Império, a passagem da ditadura à democracia e a entrada na União Europeia.

Tudo isso, que se pensava vir a ter um efeito benéfico na economia, produziu de facto consequências devastadoras.

O fim do Império limitou-nos o espaço vital, cerceou-nos
matérias-primas e mercados, diminuiu-nos política e psicologicamente.

A passagem da ditadura à democracia (com o seu rosário de greves, nacionalizações, perseguições, saneamentos, reivindicações laborais insustentáveis, etc.) destruiu boa parte do nosso tecido económico.

A entrada na União Europeia e a abolição das fronteiras pôs-nos em confronto com economias muito mais avançadas, acabando de liquidar o que restava da nossa débil capacidade produtiva.

A crise internacional é de outra natureza.

Ela decorre da globalização e tem duas vertentes.

Por um lado, os produtos feitos no Ocidente começam a não ter
condições para competir a nível global com outros produzidos em países (China, Índia, Coreia, etc.) onde os salários e as regalias laborais são muitíssimo inferiores.

Por outro lado, as empresas tendem a transferir cada vez mais as suas fábricas e serviços de Ocidente para Oriente – o que significa que no Ocidente vai aumentar o desemprego e no Oriente vai acentuar-se a procura de mão-de-obra.

E, em consequência disso, no Ocidente baixarão os salários, acabarão muitas regalias sociais, numa palavra, será posto radicalmente em causa o tipo de vida que se fez nos últimos 50 anos.

No Oriente, pelo contrário, os salários tenderão a subir e o nível de vida crescerá.

Assim, a crise que hoje se vive no Ocidente é de natureza diferente das anteriores.

Antes, eram crises de crescimento do capitalismo dentro da sua área geográfica; agora, a crise tem a ver com a globalização do
capitalismo.

Repare-se que grande parte do planeta, que até pouco vivia fora do sistema capitalista, aderiu à sociedade de mercado: basta pensar nas adesões quase simultâneas da Rússia e da China para se ter uma ideia do abrupto alargamento da área do capitalismo nos últimos anos.

Os grandes grupos multinacionais, que antes estavam limitados a um determinado espaço territorial, hoje têm o planeta inteiro para instalar os seus centros de produção – podendo procurar os salários mais baixos, as melhores ofertas de mão-de-obra, as menores regalias dos trabalhadores.

O planeta tornou-se um sistema de vasos comunicantes – onde, para uns viverem melhor, outros vão ter de viver pior.

Para certas regiões subirem o nível de vida, outras vão
necessariamente perder privilégios.

Perante isto, perguntará o leitor: o que poderemos fazer para inverter o estado das coisas?

Basicamente, não há nada a fazer.

Os factores que potenciaram a crise nacional são irreversíveis – e a globalização não vai andar para trás.

Assim, vamos ter de nos adaptar à nova situação, o que significa de uma maneira simples trabalhar mais e ganhar menos.

Os salários vão baixar (lenta ou abruptamente) entre 10 e 30%, os horários de trabalho vão aumentar (com a abolição total das horas extraordinárias), o 13.º e 14.º meses vão ficar em causa, a idade da reforma também vai ser ampliada (para perto dos 70 anos), o rendimento mínimo garantido vai regredir drasticamente, o subsídio de desemprego também vai  diminuir, a acumulação de reformas vai ser limitadíssima.

Muitas ‘conquistas dos trabalhadores’ na Europa, obtidas no
pós-guerra, vão regredir.

As leis laborais vão ter de ser flexibilizadas.

O sistema de saúde não  vai poder continuar a gastar o que tem gasto.

Preparem-se, porque não vale a pena protestar.

O que não tem remédio, remediado está.

Dizia há dias, com graça, Ernâni Lopes, a propósito do subsídio de férias: «Se dissessem a um americano: ‘Para o mês que vem não trabalhas e ganhas dois ordenados’, ele não acreditava».

Pois há muitos anos é esta a situação: não trabalhamos nas férias e recebemos o dobro.

Isto vai acabar.”

José António Saraiva

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O fim do Império, a passagem da Ditadura à Democracia e a entrada na União Europeia

Associo Império à ambição material, à riqueza; associo a entrada na UE, à ambição, a mais dinheiro. Finalmente, associo a Democracia ao Humanismo, mas a nossa história vem confirmando a corrupção do conteúdo deste conceito por alguns homens. Pergunto-me: porquê? Com base naquelas evidências, evidenciadas em cima, a negrito, o que terá acontecido para estarmos a atravessar uma época com um lado negro a alastrar-se? Serão as extremas ambições por possuir aquilo que nos é exterior como os bens, as coisas, as terras, as pessoas, será isso que cultiva a desumanidade? Como se explica que nas pequenas comunidades, aquelas que viviam principalmente daquilo que a natureza dava, pelo respeito desta e da troca de bens, as pessoas cultivassem a sua humanidade e, quando a comunidade é cada vez mais global, as pessoas tenham a tendência para se afastarem umas das outras e sejam egocêntricas? Porque se sentem indefesas e frágeis?

Precisamos de electricidade pagamos a alguém para a podermos ter, precisamos do telefone pagamos a alguém para o podermos utilizar, precisamos de água pagamos a alguém para  a podermos consumir… Esse alguém não tem rosto, esse alguém que começou por existir para satisfazer uma necessidade, criou-nos o hábito e a dependência. Talvez por isso, alguns, mas ainda poucos, voltam a dar o valor à terra, ao seu pequeno terreno, cultivam-no, criam animais, fazem trocas com os vizinhos, vivam com poucas coisas. Com tudo isto sentir-se-ão mais independentes?! Se calhar sim, se calhar o futuro é “voltar à terra”, às pequenas comunidades e, quem sabe, ficaremos mais ricos, porque finalmente descobriremos (redescobriremos) a nossa fonte de riqueza, a humanidade, uma humaninade com um maior conhecimento científico e tecnológico, porque existe todo um potencial adquirido a este nível e seríamos muito pouco inteligentes se o desperdissássemos. Quanto aos bens materiais? Deverão ser os suficientes, porque só sendo os suficientes é que cumprem o seu objectivo: servirem-nos e não servirem-se de nós.

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