Bordado

 

Para a minha mãe

Sempre que limpo o pó da nossa casa, pego naquele napron que a mãe bordou para o seu enxoval e leio “quero ser amada”…

A si mãe, dedico, hoje, estas minhas sensações, as sensações da minha infância e adolescência que a minha memória vem guardando e pensei fazer com elas um bordado de palavras, pegando umas linhas aqui, outras acolá.

Entro muitas vezes naquela casa e vivo-a, recordando o seu soalho marcado pela presença do bicho da madeira, as paredes irregulares por tantas vezes serem limpas com cal, o chão cor de tijolo marcado pelo peso dos passos, as portas e portadas cuja madeira teimou em marcar a sua presença inchando de orgulho no Inverno e, consequentemente, teimando em fechar-se, os ferrolhos lixados pelo finito toque das mãos, o cheiro a molhado na cave e a seco no sótão; o toque das gotas minúsculas que dançam no ar das praias da costa alentejana e festejam a nossa face; o som da feira de Sacavém, ali mesmo em frente, o sabor das farturas que não enfartam, as tonturas provocadas pelo carrossel; as corridas de bicicleta e a dor provocada pelos pedaços de terra quando me estatelava no chão; os banhos frios nos tanques construídos nos quintais; o prazer de quem apanhava com as mãos as moscas distraídas em pleno voo; o calor dos asfalto nas costas quando nos deitávamos no chão olhando as estrelas no céu ao som do coro dos grilos; os dias inteiros passados na praia com as brincadeiras, com o sol, com o creme nívea na ponta do nariz e nos ombros e, mais tarde, o óleo que nos confundia, ao fim do dia, com a cor dos camarões cozidos, os arrastões do corpo pela areia que tornava baço o bronze; os estalinhos usados no Carnaval, comprados na D. Anita, os quais explodiam nas nossas mãos em forma de concha e que cheiravam bem; as confissões entre amigas ao som do vinil que tocava repetidamente o “Classic”; os dias passados a estudar, o nó no estômago antes da frequência ou do exame e a descompressão, a seguir, dormir…; na família sonhos que não tiveram tempo de se realizar, o arrependimento, a frustração de não se ter conseguido ser melhor, a constatação de não se ter aprendido a compreender, o desabrochar dum outro sorriso nos seus últimos anos de vida o qual me fez e faz sorrir; as longas viagens no Ford Cortina; a necessidade de ficar alerta algumas, muitas noites para evitar o que se avizinhava incerto, a força insuficiente para o peso; a “Casa de Saúde” fria e seus caminhos subterrâneos “ecoósos” percorridos semanalmente durante muitos momentos com o coração seguro nas mãos e, ao abrir-se a porta para a luz do dia, aproximavam-se os senhores que pediam um cigarro ou dinheiro para um café, pois a visita não os visitava, andando até ali e voltando aqui, andando até ali e voltando aqui, com um olhar vazio (ou cheio) fixo no chão e mãos descansando atrás, escondidas; o simpático passeio de 28 no coração de Lisboa; o bolo de pastelaria ou o chocolate Regina que eu aguardava ansiosamente todos os dias sempre que a mãe chegava da “praça” e os nossos ouvidos colados à telefonia, ouvindo “Simplesmente Maria”…

As sensações guardadas na minha memória só são possíveis, porque a mãe criou um espaço para mim na sua vida. E, eu, que já fui uma jovem memória, gosto de envelhecer, assim, com sensações sobre o “quê?”, o “onde?”, o “como?” e o “porquê?” as quais vão sendo sentidas de forma diferente à medida que o tempo passa. Estes pontos de interrogação são as minhas bengalas para o presente e para o futuro. É nelas que me apoio, é com elas que caminho.

A sua filha, Milita

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