O Menino, a Estrela e o Tempo

 

Escrevi esta história em 2003, tinha 39 anos e reflectiu muito do que eu sentia na época, a necessidade de me aproximar da natureza. Li-o num seminário, sobre o Valor do Tempo, o qual se realizou na escola que o meu filho mais velho frequentava.

Escrevi esta história inspirando-me em ti, João Gonçalo.

 

Num dia de Verão o menino que vivia na cidade foi até uma aldeia com os pais.

Na manhã seguinte, ao acordar, estava muito aborrecido porque não sabia como ocupar o tempo. A casa onde estava não tinha televisão e, embora ouvisse alguns meninos na rua, não se atrevia a ir brincar com eles, pois não os conhecia.

Começou então a olhar para o chão e um carreiro de formigas chamou a sua atenção. Caminhavam em fila indiana, umas levando bicharada, outras, sementes.

Por vezes, aquilo que transportavam era tão grande que parecia mover-se sozinho. A azáfama e o esforço destas formigas eram de tal forma que o menino ali ficou a contemplar o comportamento organizado e eficaz daqueles pequenos bichos andando para trás e para a frente com o objectivo de armazenar alimentos para a comunidade inteira.

 Até aí, a experiência que ele tinha com as formigas era desagradável. Via-as como bichos insignificantes que o aborreciam nos piqueniques e que os pais “passavam a vida” a enxotar. Entretanto, a seu lado, dançavam umas abelhas junto a uma floreira. Elas nem deram pela sua presença. Ele que estava habituado a fugir delas!…

 Resolveu dar um passeio pelo campo. No caminho, encontrou um charco. Baixou-se para lavar a cara que estava quente do sol e viu uma rã saltar. Apanhou-a e, pela primeira vez, sentiu-a de forma diferente: observou a maneira como esticava as pernas ao saltar da sua mão, como o corpo se movia ao respirar, como a sua pele era escorregadia…

Entretanto, viu que eram horas de jantar e foi para casa. Estava esfomeado! Até a sopa lhe soube bem! Depois, sentou-se no sofá e adormeceu. A mãe pegou-o no colo e, ao deitá-lo na cama, ele sentiu que o estavam a deitar numa nuvem.

Uma estrela dirigiu-se a ele e acordou-o. O menino, ao mesmo tempo espantado e assustado, teve uma sensação de paragem no tempo, talvez porque se sentisse leve e feliz.

A estrela sentou-se a seu lado e disse-lhe:

– Sabes, aqui o tempo parece que não passa, portanto não te assustes. Eu vivo neste sítio do universo há muitos, muitos anos e o sol preparou-me para a tarefa de observar constantemente o sítio onde vives. O meu amigo é o Tempo e é com ele que eu converso. Queres ver como eu sei muitas coisas a teu respeito? Vives com os teus pais numa casa alta que tem lá dentro muitas casas mais pequenas. Tu vives numa e outros meninos vivem noutras. Levantas-te cedo para ires para a escola e os teus pais para o trabalho. Quando a escola termina vais para outro sítio que me parece outra escola onde aprendes outras coisa e também brincas. O teu pai ou a tua mãe vão buscar-te ao fim do dia e, uma vez em casa, fazes os trabalhos da escola, jantas e, por fim, sentas-te em frente a uma televisão. A tua mãe e o teu pai continuam as tarefas domésticas e depois, por vezes também levam trabalhos de casa. Quando se sentam ao pé de ti, sentes que estão cansados do dia agitado que tiveram. Às vezes ouves: “somos uns escravos do tempo”, “o tempo passa a correr”, “não temos tempo para fazer aquilo que gostamos”, “ainda ontem era Natal e já estamos quase no Verão”. Queixam-se que o tempo passa depressa, mas quando pensam no fim-de-semana ou nas férias, desejam que estes cheguem depressa para poderem descansar. O meu amigo Tempo fica muito aborrecido com os adultos, porque lhe parece que, ora querem que ele ande depressa, ora devagar. E o relógio?! Andam sempre a olhar para aquilo para ver se ainda têm tempo. Ele é o seu grande rival! Sabes, o que me entristece é esta maneira de viver vos levar até determinados estilos de vida e, depois, o resultado ser o desejo de algo indeterminado. Procurarão o verdadeiro tempo? O seu Tempo? Aquele, o meu amigo? Hoje, sem dares por isso, começaste a descobri-lo. Lembras-te quando te sentaste à porta à espera que o tempo passasse? Pois é…ele passou, levemente…tu olhaste para as formigas, para as abelhas, para a rã. Não tinhas ninguém perto de ti para te dizer como tinhas que ocupar o tempo e ele prontificou-se logo para estar a teu lado. É esse o meu amigo que quer ser teu também. Ele permite-te descobrires a vida por ti. Abriste a tua porta e ele entrou sem hesitar. Simples, não foi? Eu falo contigo, porque as crianças têm mais jeito para entender a simplicidade. Os adultos confundem-se muito. Olha, ensina-os a olhar a realidade duma forma mais simples, mais original! Está bem?

Vá, já é de manhã. É tempo de acordar! Aproveita para descobrires mais! Nunca deixes fugir a tua curiosidade. Nunca deixes que o tempo apague aquilo que há de melhor em ti, porque este meu amigo também tem defeitos.

 

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