Abrigo

 

Igreja dos Anjos, Avenida Almirante Reis, Segmento de Recta traçado pelos carris do eléctrico, prédio com alçada, em frente…dormitório dos Sem Abrigo.
 
 
Precisei de ir à Worten para comprar uma máquina de calcular ao meu filho “Texas Instruments…Gráfica”. A minha calculadora Texas Instruments guardada numa caixinha cinzenta já faz parte do pretérito perfeito, pois, nunca calculou gráficos. Lembro-me de usar a régua e o compasso e da satisfação que me dava o acto de começar a construir uma parábola, pois, quando chegava a altura de unir os pontos, via nascer um desenho perfeito.
 
 
Bem, estava eu na Worten e vejo um rosto num ecrã duma televisão, o rosto dum homem bonito, marcado pelas rugas na pele e no olhar. A imagem era tão nítida que aquelas marcas me lembraram caminhos, caminhos difíceis que foram deixando rasto, um rasto que desenhou o seu rosto com formas de pensar, de sentir, de ver, de agir.
 
Associei esta ideia e esta imagem, aos homens e mulheres “sem abrigo” que eu encontrava na Almirante Reis sempre que fazia aquele percurso a pé até à Baixa de Lisboa. Lá estavam eles sentados ou a dormir em cima de cartões, rodeados pelos seus bens dentro sacos – plástico dum supermercado. Se repararmos, a sua vida material acompanha-os para todo o lado dentro de sacos e quando têm necessidade de encontrar uma novidade, recorrem aos contentores onde os “com abrigo” depositam aquilo a que chamam lixo.
 
Penso então, como os homens e mulheres “com abrigo” vivem e como os homens e mulheres “sem abrigo” vivem.
 
Os  homens e mulheres “sem abrigo” têm um tecto que é o céu, um lugar sem paredes, têm pouca roupa e uns sapatos, os pertences num saco de plástico, um cartão para dormir, jornais para os proteger do frio, o amigo cão,  falam sozinhos e ninguém os incomoda, a sua imagem afasta os indesejáveis, não gastam energia para conservar os alimentos, aqueles que boas pessoas partilham com eles, utilizam somente o seu próprio corpo para se deslocarem no espaço, quase não produzem lixo, usam o seu dia como bem entendem sem chatear alguém e vivem o seu circulo restrito de amizades, aqueles que vivem…e não sei se desejarão viver mais do que assim.
 Os homens e mulheres “com abrigo”, se unirem esforços para lhes oferecer um abrigo, alguns não querem…
 
São livres!!!!…….? será que se sentem livres? e a solidão??…A sua própria companhia basta-lhes?
 
Alguns dos homens e mulheres “com abrigo” iniciam a sua vida de independência, comprando uma casa, um carro, passando férias em tendas ou em pensões e depois, vão mudando: mudam para uma casa melhor, trocam o carro por um melhor, o telemóvel por um melhor, a roupa por uma melhor, trocam a tenda ou a pensão por um hotel, se possível, um bom hotel….a imagem…
Não serão os homens e mulheres “com abrigo” que desabrigam a natureza incluindo a sua, tornando-se prisioneiros das paredes que vão construindo? Será também por isso que serão infelizes vezes demais? por quererem mais coisas e mais e mais? mas, se ao querermos mais e ao conseguirmos continuamos insatisfeitos, é porque a nossa fome não é de coisas.

Sei que esta minha reflexão é redutora, mas, não valerá a pena pensarmos nisto?
 
Penso que se fossemos oferecendo um pouco dos nossos abrigos de amor e de amizade a quem se cruza connosco, incondicionalmente, puramente… se conseguíssemos agir desta forma, o resultado seria o de um abraço micro gigantesco, micro porque aqui, porque perto, gigantesco, porque quente, porque sentido e, aí sim, todas as coisas que vamos construindo e produzindo e adquirindo teriam um valor infinito tal como um ursinho de peluche…insubstituível
 
 
 
Marília Ribeiro

 

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