lindo de “SeVer”

 

No Domingo trilhámos caminhos antes percorridos por contrabandistas, mas com o objectivo de respirar uma tarde primaveril e apreciar as plantas que a chuva e agora o sol, ajudaram a renovar. Iniciámos a nossa caminhada de cerca de 14 Km num pequeno lugar onde nos cruzámos com a D. Balbina que deu dois dedos de conversa com a nossa amiga Teresa. Deixámos a estrada coberta de alcatrão para entrar na descoberta e, ao fim duns belos metros, começámos a nossa descida pela serra coberta de mato, de linhas de água – os riachos sussurantes, de musculados sobreiros despidos da cortiça e, num pequeno aglomerado de casas algumas reconstruidas por estrangeiros que se apaixonaram por este quadro natural, conhecemos uma inglesa(?)/holandesa(?) que tinha comprado naquele momento um burro velhinho e coxo. Disse ela que o comprou para fazer companhia a um outro que já tinha. Fizemos todos o mesmo trajecto, o único, atrás da senhora e do burro e parámos na encosta dum vale para nos deleitarmos com a correria do rio “Sever” (um rio lindo de se ver , daí ser baptizado com aquele nome) pelo meio da paisagem amarela de acácias. Este cenário que acabo de vos descrever vive num local chamado “Mãe Velha”. Por aqui as nossas serras escondem pequenos tesouros que gente de terras frias e com pouco sol vem para os valorizar, ao optar por um outro estilo de vida, respeitando-os, crescendo no seu seio, um seio reconfortante. Continuámos o nosso percurso e tivemos oportunidade de assistir à apresentação do velho burro ao burro residente, ao cavalo branco e ao pónei. O pónei, depois da apresentação, deu meia volta para dar uma patada no burro, foi repreendido pelo dono, mas seguiu, indiferente, o seu caminho de narinas vaidosamente empertigadas. Chegámos à estrada de alcatrão, a qual nos conduziria ao fecho do círculo do nosso passeio. Encontrei uma cadela com a qual simpatizei. Passeava o seu tempo dentro dum espaço delimitado por muros de pedras quando respondeu ao meu chamamento para lhe oferecer umas festinhas. Tinha pendurado ao pescoço um pau que lhe dificultaria um salto sobre aqueles muros de pedra (pensámos que era essa a sua função ao alguém ter colocado aquilo no pescoço do bichinho). No restante caminho que percorri, a imagem imaginada por mim sobre aquela cadela acompanhou-me e fui extrapolando para o mundo dos humanos o que senti sobre o que imaginei. Associei aquela imagem aos muros criados por eles, os humanos e para eles, os humanos e o peso (in)visível que os impede de saltar aqueles muros para além dos quais existem outros estilos de vida que lhes permitiriam, quem sabe, conduzir a sua vida na maior parte do tempo.

Eu gosto de sentir por perto as flores, as árvores, os riachos; gosto de ouvir o galo da vizinha a cantar às 5 da manhã, os gansos a grasnar, os pássaros a chilrear quando o sol está a nascer; olhar a cor de fogo que o sol arrasta no céu ao deitar-se, olhar o casal de cegonhas da minha janela da cozinha. Gosto de saber que existe gente que opta por viver numa casa na qual basta um passo para se conectar à Terra, que trata cada vez melhor os frutos que esta dá, qua a trata como se fosse alguém muito chegado da família – a Terra Mãe, a Mãe Velha, linda de “SeVer”.