O Tareco Escritor e o Cinza Cantor

No dia 12 de Novembro de 2010 partilhei aqui, em “Palavras Soltas”, um conto que escrevi inspirando-me no meu filho. Escrevi-o, tinha o João 10 anos. Há um ano escrevi um para a minha filha, tinha ela 12 anos. A Carolina pediu-me que lhe escrevesse uma história e foi esta que eu imaginei. Escrevi-a numa noite, antes de me deitar. No dia seguinte imprimi-a numa folha de papel e ofereci-lha, partilhei-a com alguns amigos e familiares, aqueles que sei que gostam de ler o que escrevo e guardei-a até hoje. Já tinha pensado várias vezes partilhá-la aqui, mas estava com dificuldade em deixá-la ir…

Vou então contar-vos a história dum gato, o Tareco, duma rato, o Cinza, que tinha o desgosto de ser gago e duma aranha graciosa, a Carolina. 

 

 

O Tareco escritor e o Cinza cantor

Não conseguia ainda abrir os olhos de pequenino que era, mas sentia o reboliço num ambiente extremamente fechado. Faltava-lhe o oxigénio para respirar. Ele queria fugir dali. Despertou as suas pequeninas garras e esgravatou, esgravatou, esgravatou até romper o saco de plástico onde alguém o tinha fechado para morrer asfixiado. Libertou-se. Cheirava horrivelmente mal…garrafas, sapatos rotos… ele fazia parte daquele lixo, daquele lixo que rolava estrada abaixo, dentro daquele caixote derrubado pelo vento numa noite de temporal.

– Acooorda!!! – disse-lhe o Cinza.

– Oh não, outra vez aquele pesadelo! Nunca mais me livro dele! – exclamou o Tareco

O Cinza era um ratinho que naquela noite procurava comida, quando um caixote do lixo foi ao seu encontro a grande velocidade. Ouviu uma chiadeira terrível saindo da boca do caixote e escondeu-se assustado atrás da roda de um carro. Espreitando, viu o que lhe parecia ser um da sua espécie sobressair de um monte inanimado. Correu até ele e, chegando perto, recuou logo em seguida.

É um gato!!! O que faço? A minha mãe, que Deus tem, aconselhou-me a nunca me aproximar dum gato, pois é o nosso maior inimigo.

O gatinho olhou para ele igualmente assustado, pois este era o seu primeiro dia de vida em cima daquele passeio molhado e sujo como ele. O olhar de ambos gritou-lhes a primeira palavra, a palavra cujo significado mais tarde eles haveriam de conhecer. Sabes qual? A palavra “Amizade”.

Faz hoje 6 anos, Cinza, que me batizaste de Tareco por eu ter saído do meio do lixo como um caco sem valor e é como eu ainda me sinto, um caco sem valor…

Lá essstás tu!!! És booooo…nito, briiiiii…lhante. Eu sou ciiiiiin…zento como as nuuuuu…véns barrigudas de chuva, gágágágá…go e estou a ficar velho gagueta. Aiiii jajajarreta!!

Passado um ano de se terem conhecido e depois de terem corrido todas as ruas da cidade, encontraram finalmente um abrigo. Uma mansão desabitada, situada numa linda avenida ladeada por laranjeiras cobertas de flor. Naquela casa haviam vivido gatos, pois numa das portas traseiras fora recortada uma pequena entrada em forma de meio círculo para que eles entrassem e saíssem quando lhes apetecesse. Foi por lá que entraram. Depois de explorada a nova habitação e chegada a noite, o Cinza esburacou o colchão duma cama de corpo e meio e passou a dormir aí, no aconchego das camisas de milho. O Tareco escolheu dormir no sofá individual, envolvido num padrão de folhagem de Outono, mas não tinha poiso certo: ora dormia aqui, ora no tapete de lã às riscas estendido aos pés da cama eleita pelo Cinza.

Um dia, um gatarrão felpudo e despenteado entrou por uma das janelas rés ao chão, cujo vidro tinha sido apedrejado por uns gaiatos que por ali passaram a correr. O Tareco tinha ido à rua procurar alimento e o Cinza tinha ficado a pôr a mesa. Quando ia buscar à cozinha umas latas de sardinha vazias que serviriam de pratos, foi surpreendido pelo bicho. Este lançou-se-lhe num salto e as suas garras, após várias tentativas, prenderam-lhe a cauda. O Cinza, desesperado, derrapava com as patas nos mosaicos de duas cores em forma de xadrez. Pensou: será agora o xeque-mate neste jogo do gato e do rato? Nisto chega o Tareco, que manda ao ar as lulas que tinha fanado no mercado e lança-se ao gatarrão. Ambos guerreavam e o Cinza, aproveitando a confusão, lá libertou a sua cauda. Saltou para cima da mesa, pegou no jarro de água fria – daí auto apelidar-se de “velho jarreta” – e atirou-a para cima do gatarrão. Este, que não gostava nada de água, quando a sentiu, ainda por cima gelada, oh patas para que te quero! Pegou nelas e fugiu! A primeira palavra que o Cinza emitiu depois daquele fungagá da bicharada foi “ conconcon”….e nada de concluir a palavra.

– Foge, meu! – avisou-o o Tareco.

– O que se passa contigo? Engoliste a língua?

– Conconcon…seguímos!!! – repetiu o Cinza com relativo sucesso

– Em vez da cauda, ficaste com a língua presa, amigo! Temos que ir à noitinha à farmácia procurar um remédio para a tua língua.

Trouxeram remédio para as aftas, desinfetante para a boca, pasta de dentes e nada, nada resultou. Nada soltou a pequena língua do ratinho Cinza, coitadinho…

Ambos se foram habituando às dificuldades de expressão do Cinza, que remédio…

Estavam entediados com os dias sempre passados da mesma forma: da cama para o sofá, do sofá para o tapete, do tapete para a cozinha, um passeio até à esquina, o saque duma comidinha, até que resolveram um dia à tarde, a medo, superar este terrível sentimento que os impedia há um tempo de empurrar uma porta, a porta do sótão e bisbilhotar o que ele guardava. Teias, pó adormecido no chão e nos lençóis que cobriam… cobriam o quê? Para satisfazer a sua curiosidade, puxaram com os dentes um dos lençóis e descobriram o que eles pensaram ser um grande animal com uns dentes muito maiores que os deles, pretos e brancos, e também uma cauda.

– Quem seria aquele?! – questionaram-se.

O Cinza saltou para cima dos dentes para observar o seu tamanho impressionante (só um dente era maior que ele) e o Tareco, curioso com a cauda daquele animal adormecido, aproximou-se. Cheirou-a para ver se reconhecia a sua espécie, quando, de repente, ambos se assustaram com o grito que soou vindo de dentro daquela garganta assim que as patas do Cinza tocaram nos seus dentes.

– Seriam aqueles dentes dentes cariados? – assim que o Cinza lhes tocou, o bicho gemeu. – Doer-lhe-iam?

De um canto surgiu uma voz fininha e doce que disse:

– O que acabaram de descobrir chama-se Piano!

Pata-ante-pata, caminharam até ao canto onde habitava a voz e apresentou-se-lhes uma aranha com uma dúzia de elegantes pernas.

– Aaaah! És então tu a artista de todos estes bordados espalhados por aqui? – perguntou o Tareco.

– Sim – disse ela timidamente – Há meses que bordo pautas para alegrar os dias do meu amigo Piano na esperança de que alguém as preencha com música, alimentando, assim, a sua alma ao devolver-lhe a voz. O som que ouviste, Cinza, não foi de dor.

– Cocococomo te chamas? – perguntou Cinza.

– Carolina – respondeu ela.

Neste dia nasceu mais uma amizade, uma amizade entre um gato, um rato e uma aranha e, com ela, energia para um deles planear um projeto.

No dia seguinte, os dois amigos tomaram o pequeno-almoço rapidamente e subiram as escadas que terminavam na porta para o sótão. Entraram e admiraram as belas teias que ondulavam ao sabor do vento que corria por ali e, com o lençol que tapara o Piano até ao dia anterior, limparam-lhe o pó.

– É bonito! – exclamaram.

Chamaram a Carolina e ela respondeu mesmo do cimo das suas cabeças. Estava a bordar outra teia. Os dois, curiosos por saber algo mais sobre o Piano, pois nunca tinham visto nenhum nem ouvido tal som, pediram à Carolina que lhes contasse a sua história. Ela desceu de um fio e poisou no banco que fazia par com o seu amigo Piano. O Tareco e o Cinza sentaram-se no soalho.

Ela começou assim:

– Nesta casa viveu uma família com muitas idades. Eram muitos e faziam desta casa uma casa alegre. As crianças corriam, escorregavam pelo corrimão desde lá de cima, ao fim-de-semana, cheirava a cozinhados assados no forno e a arroz doce, ao Domingo à tarde, os amigos dos meninos juntavam-se cá e brincavam às escondidas. Infelizmente muitas das minhas amigas morreram esmagadas pelas empregadas cá da casa e viram destruídas as suas obras d’arte. Eu fugi cá para cima e escondi-me atrás daquela arca. Continuei a bordar as minhas teias, mas escolhi os sítios mais escondidos para que elas não as destruíssem. Uma filha dos senhores, a Beatriz, tocava músicas muito bonitas todas as noites depois do jantar. Tinha, na altura, 10 anos e os seus 10 dedos dançavam nesta barra preta e branca que vocês aqui veem que se chama teclado. Quando se toca nas teclas, elas movem uns martelinhos ali dentro e estes batem numas cordas. São essas que soam como uma melodia, se quem tocar no teclado souber compor os sons dum conjunto de cordas. A menina sabia fazê-lo muito bem. Sabem? Cada uma das teclas provoca um som e eu conheço-os todos muito bem. Um dia consegui reproduzir uma música que a Beatriz tocava. Era a minha preferida. Nos dias de chuva, toco-a para me animar e ao meu amigo.

Para espanto dos dois amigos, começou a tocá-la com as suas pernas em cima das teclas. Estava dançando!… Quando terminou, fez-se silêncio, um silêncio deslumbrante e brilhante! Brilhante, porque o Cinza conhecia a letra daquela música. Ouviu-a muitas vezes, quando à noite entrava na despensa daquele Piano-bar à procura dos restos de queijo que os ouvintes das músicas deixavam nos pratinhos de aperitivos. Nunca chegou a conhecer pessoalmente o piano daquele bar, mas decorou a história cantada e, naquele momento, teve vontade de cantá-la também.

Magicamente! Tu, que estás a ler, sabes o que aconteceu magicamente? Magicamente soletrou, na perfeição, cada palavra daquela canção. E que voz linda ele tinha!

O Cinza calou-se, mas logo exclamou gaguejando:

– Esesestou curado! Esesestou curado! Eseses…tou curado!!

O Piano, a Carolina e o Tareco ficaram mudos. Saltaram para cima do banco e pensaram: Mas o que estaria a passar-se? Teriam a Carolina e o Piano um dom? E o Cinza também? Todos concluíram que sim. O Cinza chorou e todos choraram, provocando um mar de lágrimas. Eram salgadas…cada gota foi caindo numa teia que ligava o pé do banco ao pé do Piano e adormeceram.

Na manhã seguinte, um raio de sol acordou o Tareco que, com as pálpebras semi- cerradas, enrugou o focinho ao olhar para a luz e seguiu o seu rasto. O seu rasto terminava no chão junto ao banco. Viu algo surpreendente. A teia do dia anterior estava diferente, estava enfeitada com umas bolhinhas transparentes que brilhavam. Aquelas bolhinhas eram as lágrimas choradas há umas horas atrás. Mais surpreendido ficou quando viu que formavam uma palavra:

– “Vi-da” – leu ele.

– Vida! Foi o Cinza que me salvou a vida naquele dia! – exclamou.

Os amigos acordaram, mas ele não contou o que tinha descoberto. Pediu à Carolina que lhe explicasse o que tinha acontecido à menina que tocava o Piano.

– Bem, a menina um dia acordou e nunca mais se levantou da cama. Não tinha força nas pernas, não conseguia manter-se de pé. Levaram-na para um hospital, para outro, para mais outro e a menina estava sempre na mesma. Até que partiram à procura da cura lá muito longe. Gastaram todo o dinheiro que tinham, mas não a conseguiram salvar. Foi uma tristeza quando voltaram. A primeira coisa que fizeram foi trazer o Piano para aqui e taparam-no para não o verem quando precisassem subir ao sótão. Uns meses depois, guardaram tudo e partiram. Tudo isto foi o Piano que me contou.

O Tareco lembrou-se novamente daquela palavra, “Vida”, lembrou-se também de quantos gatinhos teriam morrido sem sequer perceber que tinham nascido por não terem tido tempo de sentir a vida e lembrou-se de como os seus pais que, tal como os pais da Beatriz, teriam sofrido por terem visto os seus filhos partir tão novos. Interrogou-se então de que forma se poderia dar vida a alguém. A Carolina dava vida ao Piano, o Piano dava vida à Carolina, o Piano e a Carolina deram uma nova vida ao Cinza ao permitir-lhe saber que cantando se sentia um rato mais feliz, um rato que não gaguejava. O Cinza devolveu-lhe a vida sendo seu amigo, amigo dum gato. E ele?

Ele descobrira aquela palavra…

Numa noite de insónia, quando todos dormiam, Tareco entrou no sótão e aproximou-se das teias. Olhou para elas atentamente e descobriu mais uma palavra, mais outra, saltou para outro canto, para o teto e memorizou todas as palavras que conseguiu ler nas teias que enfeitavam as paredes e os móveis. Juntou-as e escreveu um poema sobre a amizade. Com as suas unhas deixou-o gravado no soalho. Deixou também uma mensagem para os seus amigos, na qual pedia à Carolina que criasse uma música para o seu poema, que o Piano a tocasse e que o Cinza a cantasse. Partiu. Partiu à descoberta da vida, à descoberta de gatinhos que, como ele, estariam destinados a não viver se não aparecesse um amigo.

 

O Tareco nunca mais teve aquele pesadelo.

 

9 de Janeiro de 2011

 

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12 thoughts on “O Tareco Escritor e o Cinza Cantor

  1. Não resisto, citando Camões:
    -“Ditosos filhos que tal mãe têm…”.
    Marília, continue e votos de um Bom Ano para si e seus

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