A carta

 

Em Julho, na cidade de Tavira, cruzei-me com este velho marco dos correios.

Fotografei-o, pois, marcos como este, marcaram a minha infância.

Na época das aulas, eu e as minhas amigas, aquelas que viviam na aldeia, trocávamos as histórias das nossas vidas através de cartas. Quando eu ia passar férias com os meus avós à aldeia, escrevia cartas aos meus pais e às minhas amigas da cidade.

Eu adorava escrever cartas!!

Para os meus pais era uma carta mais ou menos assim que eu escrevia:

Meus queridos pais

Desejo que esta minha carta vos vá encontrar bem de saúde, que eu e os avós estamos bem Graças a Deus.

Ontem fui com a avó ao forno para cozer os bolos de azeite que vamos comer na festa de setembro. A avó fez a massa, eu ajudei a enrolá-la em forma de argolilas, coloquei-as nos tabuleiros e levámos para a padaria. Lá, encontrámos as vizinhas que também queriam cozer os seus bolos. Tivemos que esperar um bom bocado, mas sabes como é a avó… como é muito faladora arranjou logo conversa para toda a tarde. Até fez um verso ao padeiro!

Hoje fui à horta e os pêssegos já estão maduros e muito saborosos. Colhemos alguns. Temos é que ter cuidado, porque têm bicho (eu ia comendo um sem querer). Lavei a roupa no tanque e secou num instante em cima dos fetos. Amanhã vamos apanhar as uvas. Disso é que eu não gosto nada! Fico com as mãos todas pegajosas, cheia de comichões nos braços e está muito calor para andar ao sol. Olha mãe, a vizinha Maria, aquela velhinha que morava ao fundo da Rua de Albarrol,  a mãe do Zé dos Pepinos, já morreu. Teve um infarto, coitadinha. Foi o funeral na semana passada.

Por agora é tudo. Fico por cá a aguardar uma carta vossa.

Um beijinho da vossa filha que vos quer muito,

Milita

Depois da carta escrita, colocava-a num envelope, dirigia-me a uma ameixoeira que estava plantada mesmo ao lado da casa, retirava um pouco de seiva de um pequeno vaso de barro preso no tronco e utilizava-a como cola para fechar o envelope. Depois, colava o selo vermelho com o desenho de um carteiro tocando uma corneta em cima dum cavalo e colocava a carta na ranhura do marco do correio. Quando os meus dedos desprendiam a carta, eu sentia que as minhas palavras tinham deixado de ser só minhas, tinham ido embora, “voando sobre rodas” e por mãos deconhecidas até chegarem finalmente a uma caixa de correio situada a 200Km…

Por outro lado, também era muito boa a sensação de receber uma carta, a sensação de abrir o envelope, retirar a carta, desdobrá-la e de começar a devorar as palavras, de identificar aquela letra com a pessoa que a escreveu, de cheirar o cheiro da tinta que desenhou as letras…o cheiro do papel e da cola que encerrara a descrição dos dias de alguém próximo de mim. Voltava a dobrar a carta, voltava a guarda-la no envelope e, algumas, tenho-as guardadas até hoje. Tenho cartas da minha avó, da minha mãe e do meu pai, eles que já cá não estão, mas ficaram as palavras cuidadosamente escolhidas e muito bem escritas a tinta azul.

9 thoughts on “A carta

  1. Cartas que ricas cartas. Hoje em dia aderiu-se à evolução e ao consumismo por parte dos telemóveis e lá se foram embora a cartas vieram as mensagens. Quem sabe talvez um dia voltem, trazendo aquela tinta que não se apaga e o cheiro que não se esquece. 😀 Porque os telemóveis sempre se estragam e lá se vão as palavras. 😉 Beijinhos

  2. A delightful homage to letter writing. Email and voice mail certainly doesn’t have the same effect. I used to collect stamps from around the world and always enjoyed getting letters from people. There was something intimate about a letter that was written. Where you felt you actually had a connection with that person. I miss those days. I wonder if someday we will remember email the same way? Peace. 🙂

  3. É verdade Marta! os telemóveis estragam-se e lá se vão as palavras!
    Actualmente ainda escrevo para duas pessoas. Escrevo para uma amiga que emigrou para a Suiça há quase 30 anos (trocamos postais na época do Natal) e para um afilhado moçambicano. É um menino de 11 anos. Envio-lhe roupa/artigos escolares 2 vezes por ano, acompanhados com uma carta e ele escreve-me também 🙂

  4. Una carta por correo, es algo que me gustaría recibir, pero hoy las cosas han cambiado tanto, que no hay manera de conseguirlo.
    Preciosa ceremonia: escribir en papel, guardar en el sobre, pegar el sello y echarla al buzón.
    Un abrazo

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