Encontro entre duas histórias

Hoje tive vontade de escrever uma história. Nasceu assim:

Estávamos num dia do mês de Novembro. A Alicinha tinha 4 anos e vivia com a mãe numa pequena casa com portas e janelas cor-de–rosa.

Chovia torrencialmente e, ao redor, o eucaliptal estremecia nos ouvidos de ambas. Às 21 horas um relâmpago gigante apagou as luzes daquele lugar e ficou escuro como breu. Ela e a mãe deixaram a loiça do jantar por arrumar e dirigiram-se para a janela do quarto. Acenderam uma vela, sentaram-se no pequeno sofá de veludo amarelo-torrado e ficaram as duas olhando as gotas da chuva batendo freneticamente no vidro como se estivessem suplicando para entrar. A mãe puxou-a para o colo e perguntou-lhe:

Vês aquelas árvores esguias e altas lá ao fundo?

Sim – respondeu a Alicinha.

Aquelas árvores escondem um segredo. Um segredo que foi meu até hoje. Vou contar-to agora, queres?

– Simmmmm! – respondeu a menina.

Eu passei toda a minha vida neste lugar. O mais longe que eu fui, foi à cidade que dista 50 Km daqui. Mas isso não quer dizer que não tenha viajado muito. Todas as semanas vinha até aqui uma carrinha branca com muitos livros. Eu chamava-lhe a carrinha das histórias e quando entrava nela sentia-me muito feliz. Fechava os olhos, rodava sobre os pés numa volta completa sobre mim própria e parava com o meu dedo indicador apontado numa direcção. Abria os olhos e retirava da prateleira o livro aleatoriamente indicado. Viajei por Inglaterra com as gémeas da colecção “O Colégio das 4 Torres”, fui até à Argentina com a Mafalda, à Gália com o Astérix…Um dia o meu dedo parou no livro de “Alice no País das Maravilhas”. Quando o retirei da prateleira, caiu um outro livro. Caiu um livro com muitas folhas com o título “Oliver Twist”. Perguntei ao senhor da biblioteca se podia levar os dois livros e ele assentou. Numa noite, estava eu muito bem a ler a história do pobre Oliver Twist e comecei a ouvir um barulho estranho vindo do livro da Alice. Abro o livro e salta de lá uma menina para dentro do livro que eu estava a ler. Alice, uma menina rica e um pouco farta das piadas dos meninos que a rodeavam, justificou-me este facto para desejar conhecer Oliver, um menino com uma personalidade oposta àqueles, um menino órfão que personificava a resistência ao sofrimento à corrupção e à luta pela vida que fazia dele um verdadeiro sobrevivente. Eu deixei que tal acontecesse! Depois, vejo saltarem os dois do livro grande! As histórias destes dois livros ficaram paradas em determinada página sem os seus protagonistas e, eles, pequeninos, ficaram olhando para mim em cima dos meus joelhos…

– Como irei eu entregar os livros sem vocês lá dentro? –  perguntei-lhes

– Não entregas! – disseram em simultâneo.

Mãe, como fizeste tu? – perguntou a Alicinha.  

Eu disse que perdi os livros, a minha mãe ralhou-me muito e teve que pagar uma multa! Mas os livros estão guardados na toca de um coelho aos pés dum eucalipto daqueles.

Ambas, dirigiram o olhar na mesma direcção.

Naquele mesmo dia, Alice levara Oliver até ao seu mundo e eu acompanhei-os, levando os dois livros comigo. Guardei-os na toca, a porta de entrada para o mundo dos sonhos. Eles entraram e por lá ficaramHoje, Oliver é médico voluntário, num mundo nada maravilhoso, no mundo dos países em guerra, tentando fazer dos sofredores uns sobreviventes.

– E a Alice? –  perguntou a menina.

– A Alice continua por aí, alimentando sonhos…

FIM

Imaginei esta história inspirando-me num fim de tarde tempestuoso que aconteceu quando a Carolina tinha 4 anos e o João, 8. Actualmente ela tem 15 anos e, de tempos–a-tempos, ainda me pergunta “mãe lembras-te daquele fim de tarde quando um temporal apagou as luzes da nossa casa e tu sentaste-me comigo e com o mano no sofá contando-nos histórias à luz da vela?” 🙂

Bons sonhos

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6 thoughts on “Encontro entre duas histórias

  1. Adorei esta história! Fez-me recuar no tempo, foi como se voltasse a ser a pequenina Fátinha, sempre gostei de ouvir uma boa história e então de uma amiga como tu, melhor ainda. Por vezes não conseguimos expressar aquilo que sentimos, se pudesse abraçava-te e dizia-te o quanto te admiro e como é bom ter-te como Amiga!!!

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