O galo mágico

 

Ontem, um programa que ouvi na rádio sacudiu o pó a alguns objectos (e não só) guardados no meu baú. Olhei para eles e foi isto que recordei:

Os objectos da minha infância vendidos em drogarias, algumas ainda existentes, vendidos em retrosarias, algumas ainda existentes, guloseimas vendidas em mercearias, estão a fazer parte de um fenómeno emergente –  o fenómeno do tradi(na)cional casticismo.

Penso que foi a nossa necessidade de guardar a nossa história que não deixou que muitos objectos se perdessem na memória dos tempos. Hoje, esses objectos são adjectivados de “Castiços”.

(Significado de Castiço: De casta, de boa raça; Próprio para propagar a raça; Puro, não degenerado)

Quem não se lembra do cheiro do sabonete Feno de Portugal (nos anos 60 e 70 contava-se pelos dedos as marcas de sabonetes comercializadas em Portugal), do creme que as nossas mães usavam no rosto, “Tokalon”, da “Pasta Medicinal Couto”… Pois é, actualmente, começam a renascer lojas que vendem estes e outros produtos quase  esquecidos, lojas com um toque moderno e com jovens atrás do balcão. Mas aindam existem lojas que mantêm os traços com os quais nasceram, traços escondidos pelo pó, traços sublinhados pela tinta desbotada dos balcões, das prateleiras e dos armários de madeira. Ainda ontem espreitei para dentro de uma pequena drogaria e vi embalagens de aguarrás à venda! A aguarrás usava a minha mãe para remover a cera dos sobrados.

Os cheiros destes produtos ficaram colados para sempre nas minhas narinas (cheiros de inverno e cheiros de verão). Por que é que a minha memória sensorial os conservou? terá sido por a oferta ser limitada àqueles? terá sido por ser criança e, como tal, ter boa memória? hoje em dia existe, por exemplo, tanta diversidade de sabonetes que a nossa memória mistura os seus nomes. Terá sido a fraca diversidade, a causa principal deste registo que me acompanhará até a minha memória morrer?

Também acho que nós, portugueses, como somos feitos duma matéria constituida por “saudades” ajudou a não nos esquecermos da aguarrás, dos chocolates “Regina” de vários sabores, dos gelados “Rajá”… ahh! e o peso da marca era tal que esta passava a nomear o produto! Eu ia à mercearia e pedia ao senhor: “quero um Rajá se faz favor”. Ou ainda o inesquecível pregão: “OLÁ (outra marca de gelado que ainda está bem vivinha) Fresquinho!! É Frutó Chocolate?”

Bem, agora, a fotografia que vos vou mostrar é a de um objecto muito querido da minha infância e pré-adolescência.

Na casa de banho dos meus pais existia um galo em cima do armário dentro do qual nós guardávamos os artigos de higiene. Para mim era o galo mágico! Por quê mágico? porque ele adivinhava o tempo! Quase todos os dias, quando eu me levantava, se era inverno, eu olhava para o galo na expectativa  de ele ter um tom cinzento a atirar para o azulado. Esta coloração era sinal que o tempo estava a melhorar. No Verão, quando ele coloria as asas com um azul forte era sinal que o dia iria estar quente e o céu estaria muito azul. Se estivesse cinzento, queria dizer que iria chover ou o céu estaria nublado. Só depois de eu consultar o galo mágico é que eu ia espreitar à janela para confirmar se o galo tinha ou não adivinhado o tempo. Sim, era um galo sincero. A sua cor nunca mentia.

Este ano, quando fui visitar Miranda do Douro entrei numa loja antiga (visito estas lojas quando vou a qualquer lugar e as/os logistas são quase sempre pessoas para cima dos 60 anos, pessoas que talvez tenham crescido atrás daqueles balcões) e, qual é o meu espanto, quando olho para uma prateleira e vejo os meus preciosos galinhos!!! exclamei de alegria!! é verdade! fiquei tão contente com aquele reencontro! Eu pensava que eles já estavam extintos 🙂 mas não! Em Miranda do Douro, uma terra situada na extremidade nordeste de Portugal, eles sobreviveram!! Comprei um! Sabem onde ele vive? vive empoleirado num armário de madeira que eu tenho na casa de banho, tal e qual como os seus ascendentes.

Apresento-vos o meu exemplo de Tradi(na)cional Casticismo! Ahhhh! já agora, adivinhem como vai estar o tempo por aqui, pelo Alto (do) Alentejo 😉

Será? O tempo irá mudar da noite para o dia?

..E o pregão do “Olá Fresquinho”! Sempre…

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4 thoughts on “O galo mágico

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