A Câmara Clara

 

Hoje tive curiosidade de reler um livro que li quando tinha vinte anos, “A Câmara Clara” de Roland Barthes. 

Ele começa assim: Um dia, há muito tempo, encontrei uma fotografia do irmão mais novo de Napoleão, Jerôme (1852). Disse então para comigo, com um espanto, que desde então, nunca consegui reduzir: “Vejo os olhos que viram o Imperador”.

Gosto daquela frase, uma frase que “fotografa” a intimidade intrínseca a uma fotografia – Roland, ao olhar para a fotografia de Jerôme, sentiu Napoleão ao olhá-lo nos olhos.

Bem…e  em outra parte do livro ele descreve como “Spectator” o que sente ao olhar para algumas fotografias:

Esta fotografia antiga (1854) toca-me: é aqui, simplesmente, que eu desejava viver. Este desejo mergulha em mim a uma profundidade e através de raízes que eu desconheço (…) seja o que for de mim próprio, das minhas razões, dos meus fantasmas. (…) Para mim as fotografias de paisagens urbanas ou campestres devem ser habitáveis e não visitáveis. Se eu observar bem em mim próprio, este desejo de habitação não é nem onírico, nem empírico, ele é fantasmagórico, liga-me a uma espécie de visão que parece levar-me para a frente, para um tempo utópico, ou levar-me para trás, para não sei que parte de mim mesmo. Perante estas paisagens de predilecção, tudo se passa como se eu estivesse certo de lá ter estado ou de dever lá ir.

Roland Barthes chama a isto ser trespassado por uma fotografia, tocado.

Olhando a fotografia nesta perspectiva, eu concluo, pelo menos por agora, que ao sermos tocados por uma imagem, por uma fotografia tirada por outrem, fazemos uma entrada directa no seu cenário e imaginamos a nossa história lá. Passamos a ser actores naquele palco cujo cenário o fotografo marcou com sinais da sua própria história. É por isso que uma fotografia é uma fonte de significados e de histórias que, a partir do momento que é mostrada a outros e os toca, deixa de pertencer ao seu criador, cada pessoa deixa a sua impressão digital na esfera do imaginário criado pelas imagens que determinada fotografia despoleta.

 

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