O pesquisador

Vou contar uma história que me contaram ontem à noite, na sequência de uma outra história que eu contei.

Era uma vez um pesquisador. Um homem curioso que olhava para tudo o que existia por onde quer que passasse. Num dia de Primavera, ele passeava numa avenida de uma cidade desconhecida e os seus olhos foram atraídos por um jardim. Ele entrou nesse jardim. Viu flores bonitas de todas as cores, borboletas, bandos de pardais ondulando no céu, árvores de fruto, arbustos que não conhecia…estava deslumbrado! Continuou caminhando naquele denso jardim e os seus olhos de pesquisador descobriram uma lápide escondida entre umas flores. Na lápide lia-se a seguinte inscrição: “5 anos, 3 meses e 7 dias”. Ele interrogou-se sobre o significado daquele tempo. Continuou a olhar em redor e viu outra lápide onde repousava outra inscrição: “3 anos, 7 meses e 2 dias” – o que será isto? perguntou-se. Depois viu outra: “4 anos, 5 meses e 5 dias”. Eu estou num cemitério! – concluiu. Que horror! Que cidade é esta onde só morrem crianças? O que terá acontecido aqui?

O pesquisador, apavorado, dirigiu-se ao jardineiro e perguntou-lhe o que tinha acontecido naquela cidade que tinha motivado a morte daquelas crianças. O jardineiro, sorrindo, respondeu:

– “Não, senhor! não estamos num cemitério! Nesta cidade existe o costume de darmos às crianças até aos 15 anos, um bloco de notas e uma pedra. No bloco de notas pedimos às crianças que vão registando todos os momentos em que sentirem uma boa emoção e o tempo que durou. Pode ser um beijo, um namoro, o acolhimento de um animal, o abraço do pai que esteve longe durante muito tempo, uma prova de amizade…depois, no dia em que elas celebram os 15 anos, somam os tempos de todos esses momentos, registam o total na pedra, escrevem o seu nome e, cada jovem, escolhe um lugar neste jardim para colocar a sua pedra.”

A história terminou ontem. Hoje, ao misturar os ingredientes daquela história com os de histórias que eu já vivi,  pensei: Como os nossos códigos comunicacionais registam inscrições nas nossas emoções de forma tão diferente e de intensidade tão diferente!!!… essas inscrições vão-se interligando e construindo uma história, a nossa história e, na nossa história existe um dicionário que decifra as mensagens que chegam do exterior até nós.

O pesquisador, um homem curioso, um homem que se interroga, foi induzido em erro pelo seu dicionário, pelos seus registos, os quais foram criando raízes nas suas emoções. O que ele leu nas lápides assim que foi alimentando a sua curiosidade por aquele jardim foi: “horror”, “morte”, “crianças sofredoras”. Mas, as suas qualidades de pesquisador não o deixaram ficar por ali. Foi procurar o jardineiro e perguntou-lhe o que se tinha passado naquela cidade. O jardineiro mostrou-lhe a realidade, uma realidade que os seus códigos linguísticos e emocionais não conseguiram ler na altura.

“5 anos, 3 meses e 2 horas” inscritos numa lápide, significavam, afinal, o que que valeu a pena viver até aos 15 anos. Naquela cidade desconhecida, os adultos ensinavam as crianças a guardar as boas emoções. Eram essas que valia a pena ficarem registadas, pois seriam essas que as acompanhariam em adultas, seriam essas que as ajudariam a encontrar, a ler, a viver o Bom e o Bem no futuro.

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