recordação

Existem pessoas com as quais nos vamos cruzando que, pela sua fisionomia, nos lembram ou o nosso pai ou a nossa mãe. Num destes fins de semana, enquanto bebia uma água, observava um senhor com sessenta e tal anos, magro, curvado – os anos vão puxando-nos para a terra, obrigando-nos a fazer uma curva para que os nossos olhos se conectem bem com ela, talvez – as suas orelhas esticadas para a frente, os seus olhos bem abertos e, sempre que engolia goles de café, os músculos da sua face ganhavam tensão, uma tensão que ajudava o líquido a descer até ao estômago. Olhos verdes, riam-se e diziam-me “Olá”. Eu respondi-lhe – Olá! Andava de um lado para o outro, impulsionado por uma energia interior incontrolável e metia conversa com este e com o outro. Em toda aquela expressividade eu espelhei muitas interrogações, interrogações que se me colocavam sempre que eu o visitava naquele casarão frio, o qual era ligado ao portão por um túnel labiríntico e branco do qual eu nunca quis memorizar onde tinha que virar à direita ou à esquerda. Uma vez no jardim onde lhe fazíamos companhia outros homens, homens que andavam para a frente e para trás, paravam e pediam-me um cigarro ou que eu lhes pagasse um café. Outros olhavam para o infinito com um olhar esquecido, outros com um olhar dormente, outros eu duvidava que olhassem.

O que ainda tenho presente, são os seus últimos olhares, olhares dos seus últimos anos. Olhares de alegria quando me viam, bem como à minha irmã. Olhares meigos diziam que nos amava, sentimento do qual eu duvidei durante alguns…muitos anos…talvez por causa das interrogações, interrogações que solicitavam uma resposta lógica; um acto e respectiva interpretação, sem espaço para qualquer dúvida.

Só esses últimos anos apagaram o “meu ponto, da interrogação”. O ponto tornou-se final e ficou uma bengala, aquela que não deixou cair o que realmente é importante.

5 thoughts on “recordação

  1. Pois é! O passar dos anos ajuda a questionar a lógica e as certezas passam a dúvidas, isto tudo faz parte das cores que vamos adquirindo ao longo da vida, nem tudo se resume ao preto e branco e é também uma maneira de encontrarmos alguma paz. Bjs

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