em março

Ontem, desci a Av. da Liberdade, sozinha e a pé. Que saudades eu tinha de fazer aquele trajecto! Admirei as lojas, agora muito chiques. Ao passar pelo Tivoli, vi-me lá dentro assistindo a um filme, um filme de outrora, O Eden, a sapataria Mariazinha. Atravessei a estrada, passei ao lado da estação do Rossio, subi a linda Rua do Carmo cheia de vida, olhei para a montra da loja das luvas, colorida, entrei na Bertrand, cheirava bem…saiu a procissão da igreja do Chiado enquanto uns ginastas faziam um esquema na rua, vestidos com roupa da marca da loja de desporto de onde saíram, eu estava a telefone contanto euforicamente a minha aventura da manhã à minha amiga Ana… estava quase sem bateria, bolas!
Agora, neste exacto momento, estou sentada no pequeno sofá da nossa casa, na aldeia, onde tudo é diferente da cidade. A lareira continua viva, embora diferente, a mesma lareira onde o meu avô se sentava. Era um homem alto, loiro, com os olhos azuis, reservado. Eu sentava-me lá dentro com ele e olhávamos para o lume que estalava e soltava fagulhas que eu acompanhava com os meus olhos até lá acima – pareciam foguetes em miniatura (estarei a exagerar? De repente, ao pensar, pareceu-me que isto não seria possível – é o que faz pensar, corta o caminho dos sonhos…) Eu, muito pequenina, também loirinha, a minha cara quente e vermelha, os olhos brilhavam e ardiam por causa do calor, quando o lume quase se apagava eu soprava-o através de uma cana. Aqui os invernos são muito mais frios, os verões muito mais quentes, o vento sopra com mais força, os cheiros são mais intensos, as estrelas no céu são incomparáveis, os lençóis da cama são tão frios que parecem molhados, a água que sai da torneira e com a qual lavo a cara é tão fria que me purifica a pele, o som das trovoadas estremecem-nos até à medula…tudo é selvagem, um selvagem genuíno, sincero, um selvagem a sério. Os extremos são extremos, é assim que eu gosto. O intenso é intenso, é assim que eu gosto.
Quando durmo sozinha nesta casa sinto-me acompanhada e isso tem acontecido com alguma frequência ultimamente, naqueles dias em que vou a Lisboa e volto tarde, pois, mal passo a fronteira natural que divide a Beira Baixa do Alto Alentejo, o sono atrai-me para aqui. Aqui onde o ar circula livremente por entre as passagens sem portas provocando correntes de ar e causando algum mistério, medo para alguns. O silêncio é profundo, aqui, e a minha viagem até à profundidade do sono é embalada por um barulho, o barulho do silêncio.

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