Uma carta escrita

Uma carta escrita para Portugal (https://www.facebook.com/lettersforportugal) que, entre outras, está numa exposição em Lisboa para Portugal ler.

Estou a pensar visitar esta exposição esta semana e, se isso acontecer, contarei o que vi.

Vou então mostrar-vos o que seguiu de Portalegre dentro deste envelope. Amanhã mostro a outra carta😉

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“Querido país meu que és tu Portugal,

Eu sou uma gaivota chamada Ajudada e ando há muito tempo para te escrever, porque te quero animar e não tenho sabido como o fazer.

Sei que as noticias que tens recebido dos portugueses não são as melhores e ontem, quando dormias, dirigi-me a oeste, parei na Ericeira, poisei as minhas patas numa rocha e olhei para o mar. Estava revoltado!! Eu até tive medo de ser engolida por alguma onda gigante, daquelas que por lá há de vez em quando. Nisto uma onda bate suavemente na minha rocha e deixa uma garrafa a uns escassos centímetros dos meus pés. Segurei-a e lá dentro estava uma folha escrita. Seria uma carta? Abri a garrafa e vi que sim, era uma carta. Ela tinha feito uma viagem da Guiné- Bissau até Portugal! Desenrolei-a e a primeira frase dizia assim:

A quem encontrar esta garrafa peço que faça chegar esta minha mensagem a Portugal.

Não foi preciso encontrar alguém, a garrafa tinha ela própria feito sozinha a viagem até à costa portuguesa.
Vou ler-te o que tinha escrito:

Olá Portugal, sou uma jovem que emigrou para longe e hoje estou zangada contigo. Vou desabafar.
Tenho pena quando vejo as notícias de Portugal perceber que o país está em saldos. Saldos de jovens, saldos de trabalho qualificado e saldos de esperança. Emigrar tem mais piada quando sabemos que podemos voltar ao nosso país quando nos apetecer, quando nos fartarmos ou quando as saudades já não se aguentam. Infelizmente não é o caso e felizmente ainda não é o meu caso. É pena a Guiné-Bissau não ter uma low-cost com viagens a 100€ ida e volta para Portugal…quem sabe um dia. Até este dia chegar é esperar sempre pelas épocas sazonais do regresso dos emigrantes, natal e férias grandes. A história repete-se!
Não quero falar de políticas, nem de políticos, nem reformas, nem ajustes. Quero falar de mim. Sou jovem e emigrei a tempo. Ninguém me obrigou nem me vi obrigada, mas fui e agora não posso voltar. É por isso que estou zangada. Tenho saudades da minha mãe e do meu pai. Dos meus tios e dos meus primos. Dos meus amigos e de todas as coisas que não posso acompanhar porque estou longe e não posso voltar.
Tudo me foi prometido, um mundo de oportunidades e escolhas. De experiências sem fim. Foi um engano que eu não consegui ver, nem a minha mãe, nem os meus amigos. Mas tu viste e nada fizeste.
Hoje estamos longe, tu aí e eu aqui. Continuo a gostar de ti mesmo zangada e só te queria dizer que desejo as tuas melhoras e que espero que deixes de vender a preço barato o sacrifico de tantos e tantas, os sonhos e a energia de quem te pode ajudar a levantar, e que acima de tudo que não vires as costas a quem ficou. Até melhorares só podes contar comigo em Agosto e Dezembro quando deixo de adiar saudades e volto para abraçar os meus.
De longe e mais aliviada, envio-te um abraço de esperança.
Beijinhos a todos e até ao meu regresso!!

Eu sou uma gaivota chamada Ajudada, porque foi um gato que me ensinou a voar e, a partir desse momento, deixou de haver barreiras para mim. Se um gato me ensinou a voar também eu conseguiria aprender a ler e a escrever e foi isso que aconteceu. Um ser humano ensinou-me. Hoje percebi quão importante foi ter aprendido a ler. Porque uma garrafa haveria de chegar até mim! Uma garrafa com uma mensagem que eu deveria fazer chegar até ti.

Ao ler as saudades da Susana, tornei-me mais atenta e comecei a notar que há muita gente no estrangeiro que gostava de voltar para Portugal. Notei também que há gente em Portugal que não quer sair de cá e tenta alimentar as ruas raízes.
Um dia, quando fazia uma viagem até ao Alentejo, estava eu cheia de fome quando me cruzei com outra gaivota que me levou até um sítio onde eu poderia alimentar-me. Ao conversarmos ela disse-me que estava a acontecer uma coisa bonita numa cidade chamada Portalegre e essa coisa tinha o meu nome: AJUDADA. Eu fique curiosa e, depois de ter comido, voei até Portalegre.
Encontrei logo a Ajudada, sabes porquê, Portugal? Porque quem voa consegue ver à distância quem deseja voar.
Vou contar-te a sua missão:

A missão da AJUDADA numa cidade do interior de Portugal como Portalegre que enfrenta uma grave crise económica e social, é dar uma oportunidade às pessoas desta cidade para se juntarem e encontrarem formas de entreajuda – é na cidade que existem as necessidades, mas também é ali que existe a capacidade de trabalho. O objetivo é fomentar a economia real de Portalegre de modo a que o seu exemplo possa servir de inspiração a outras comunidades locais em todo o mundo. A AJUDADA é um movimento de pessoas inspiradas pela ideia da dádiva e disponíveis para trabalhar localmente com o objetivo de assegurar a felicidade e o bem- estar dentro de uma comunidade. Numa economia da dádiva todos têm um papel ativo e são valorizados, não apenas aqueles que geram dinheiro, confiando-se no potencial de sabedoria e criatividade que cada um transporta consigo.

A mãe da AJUDADA é a Economia da Dádiva, mas quando vires por ai a circular uma mão com um coração, pelas mãos dos portugueses é ela, a AJUDADA!

Querido Portugal, como vês não podes desanimar!

Eu quase que perdi a esperança de voar e foi um gato que me ensinou! Os seres humanos aprendem a voar através de iniciativas com esta e, a AJUDADA, é a mão do coração que vai chegar até ti! Se isso acontecer, se tu Portugal, cresceres com a Economia da Dádiva, jovens como a Susana, poderão voltar para ti e reencontrar as suas raízes das quais muito se orgulham.

Por agora me despeço. Vou voar até onde as minhas asas me levarem.

A tua amiga
Ajudada

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