Guardas e Contrabandistas

No dia 26 de Dezembro, a minha ultima sexta feira de conversas com as Anciãs da Cidade e da Serra, estive numa localidade protegida pelos montes de São Mamede. Conheci um guarda fiscal reformado (que se sentou ao nosso lado à braseira enquanto eu falava com a sua senhora) e uma senhora ex. contrabandista que ouvi junto ao poial da porta da sua casa. Cada um deles contou-me uma história de outros tempos, tempos que guardam como um presente a saudade pela vida de risco e de aventura, principalmente a da senhora ex. contrabandista .

Uma noite – (pois, porque os guardas fiscais trabalhavam de noite à espreita de contrabandistas e os contrabandistas escolhiam a noite para que não fossem descobertos pelos guardas. Eram estes que ditavam o horário de trabalho nocturno aos guardas fiscais) – uma noite, diz o senhor guarda fiscal reformado:

“estava um frio de rachar na Serra! estávamos lá, porque éramos obrigados… Estávamos escondidos na parte de baixo do carreiro com a cabeça para a vereda e eu ouvi uns passos. O meu colega ressonava. Como tínhamos os pés dentro de uns sacos de plástico, quando o meu colega acordou por causa dos passos dos contrabandistas que vinham lá de Espanha com a carga, fez barulho como os pés e, um deles, sentiu barulho e fugiu. Como era a primeira vez que nós pr’ali íamos, eu não conhecia aquele caminho, estava escuro, mas mesmo assim corri atrás dele. O homem escondeu-se na urze e largou a mochila no caminho. Não o encontrei, mas peguei na mochila. Lá dentro havia soutiens, uma gadanha, camaras de ar para os pneus e colchas muito bonitas. A ele, perdi-lhe o rasto!”

No escuro daquela noite foi aquela a carga apreendida, mas a mais valiosa para os contrabandistas era o precioso café que carregavam de Portugal às costas até ao outro lado da serra onde a terra era espanhola. Da aldeia partia um homem de cada vez que assobiava quando chegava ao alto da serra. Era este o sinal sonoro para o companheiro seguinte se pôr ao caminho com uma carga de café que geralmente pesava 25 kg.

As mulheres faziam contrabando de sabão, de linhas – que iam comprar a Portalegre, a pé – pão e café, mas em pequenas quantidades. De Espanha traziam sapatilhas, pimentão, loiças… quando as espanholas não tinham dinheiro para pagar, pagavam em géneros. Ouvi a seguinte história da senhora ex. contrabandista:

“A minha mãe encomendava caixas de sardinha que vinham de Peniche e depois dizia aos guardas que era para vender às vizinhas, mas não, era para o contrabando, vendia-as porta a porta do lado de lá. Eu comecei nesta vida com as minhas amigas aos 11 anos. Um dia, eu trazia de Espanha umas sapatilhas e as minhas amigas traziam outras coisas. Fomos apanhadas pelos guardas. Eu dei a desculpa que queria fazer xixi e o guarda deixou-me ir junto a uma parede (muro). Eu, escondida, descalcei-me e calcei as sapatilhas novas…assim, já podia dizer que não levava nada! (…) as minhas amigas como levavam outras coisas, o guarda levou-nos para o posto e a polícia levou a gente para a cadeia de Marvão. Pôs-se de noite e ficámos com fome. Através das grades, avistámos um homem na rua ao pé de uma taberna. Uma delas pôs-se às grades da cadeia e pediu ajuda ao homem para fazer queixa à guarda que havia 7 mulheres com fome dentro da cadeia. Passado pouco tempo aparece a guarda republicana com uma cesta de verga com comida. Nós cantámos e dançámos de contentes! Na outra manhã levaram-nos para a cadeia de Castelo de Vide, mas como a guarda dali não tinha ordem para nos receber fomos embora. Depois, o tribunal mandou-nos voltar e ficámos presas 9 dias, mas desta vez levámos comida para não passarmos fome. Fomos a tribunal e ficámos absolvidas.”

A senhora que me contou esta história tinha cerca de 14, 15 anos na altura. Estávamos em 1942.

No sítio onde se passaram estas histórias, os guardas conheciam os contrabandistas desde a nascença. Viviam na mesma aldeia, conviviam nas mesmas taberna, iam às mesmas festas, alguns eram até da mesma família, mas cada um escolhia a sua vida e, como tal, cada um desempenhava a sua função nesta esfera da sua vida raiana, quando o sol se punha.

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