Realidades paralelas

Eram irmãos gémeos, sentiam-se unidos, a saudade apertava quando se distanciavam fisicamente, mas os caminhos que pisavam eram diferentes, embora paralelos. De mãos dadas, esticavam ao máximo um, o braço direito e, o outro, o braço esquerdo para que as mãos apertadas não se escapassem.

Um, via os papéis sujos e os cigarros gastos vagueando pelo passeio, o outro, as flores minúsculas que cresciam por entre os intervalos da calçada;

Um, via as formas artísticas das nuvens, o outro, a sua cor cinzenta que antecipava a tempestade;

Um, aborrecia-se com as pingas da chuva que começava a cair, encolhendo-se para se proteger de alguma gripe, o outro, recebia-as com gratidão com a face virada para cima;

Um, queixava-se da água fria do mar, o outro, sentia a sua limpidez com alegria;

Um, quase que vomitava a fatia de bolo cor de chocolate ao sentir seu sabor estranho, desconfiando que o tinham enganado, o outro, demonstrava felicidade no rosto, por finalmente conhecer o sabor da alfarroba na forma de um bolo;

E, num dia de muito calor, quando passeavam à beira mar, o sol escaldante queimou seus ombros. Encontraram argila numa rocha e espalharam-na. O mais resistente, olhou-a como se lhe sujasse o ombro, o outro, como se fosse um curativo.

A lama não teve força para curar a queimadura do sol do irmão que tinha a pele morena, mas conseguiu limpar a vermelhão daquele com a pele mais sensível.

Dois mundos de mãos dadas pela força invisível que os une.

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