“Se eu pudesse trincar a terra toda 
E sentir-lhe um paladar, 
Seria mais feliz um momento … 
Mas eu nem sempre quero ser feliz. 
É preciso ser de vez em quando infeliz 
Para se poder ser natural… 
Nem tudo é dias de sol, 
E a chuva, quando falta muito, pede-se. 
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade 
Naturalmente, como quem não estranha 
Que haja montanhas e planícies 
E que haja rochedos e erva … 
O que é preciso é ser-se natural e calmo 
Na felicidade ou na infelicidade, 
Sentir como quem olha, 
Pensar como quem anda, 
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, 
E que o poente é belo e é bela a noite que fica… 
Assim é e assim seja …”
Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos”

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A força no feminino

Em 2014 andei pela cidade de Portalegre e pela Serra de São Mamede à procura de senhoras com 70, 80, 90 anos que gostassem de partilhar comigo as suas histórias de vida. São mulheres ex. operárias de uma fábrica de lanifícios de de uma fábrica de cortiça, ambas encerradas pelo desenvolvimento económico. Também conversei com as tecedeiras já reformadas que teceram as mais lindas tapeçarias do mundo e com as trabalhadoras rurais, que agoram descansam daquele trabalho árduo, mas no qual se sentiram felizes. Já escrevi todas as histórias, são mais de 30! A minha amiga Marta acompanhou-me e fotografou-as. Talvez um dia editemos um livro ilustrado com as hitórias destas valentes mulheres!                                                     http://aldeia-de-gralhas.typepad.fr/mon_weblog/2016/04/hist%C3%B3rias-de-vida-projeto-de-mar%C3%ADlia-ribeiro-e-marta-nunes.html

a Cidade e a Serra são Mulheres

Iniciei uma história que eu gostava que me acompanhasse até ela querer. Não trabalharei à sexta feira durante uns meses e vou dar o tempo desse meu dia, porque há um ano aprendi que o Tempo é o Bem mais precioso que temos para dar. Pretendo partilhar esse meu dia com gente do povo, gente que trabalhou nas industrias importantes desta cidade onde hoje eu vivo e gente que trabalhou nos campos desta serra maravilhosa, a Serra de São Mamede. Vou dedicar-me às mulheres, hoje reformadas e que, com a sua força de trabalho, contribuíram para a vida desta cidade e desta serra. Vou tentar descobrir onde elas estão com a ajuda de alguns amigos e familiares e depois vou convidá-las a contar as suas histórias para mim. Vou ouvi-las atentamente e escrevê-las. Porquê? porque eu gostaria muito de escrever histórias sobre estas mulheres importantes, as mulheres do povo.

Por enquanto fecho-me na biblioteca da cidade e procuro literatura a seu respeito e a respeito da serra, mas leio ao ar livre nos Claustros de um lindo Convento ao qual a biblioteca dá acesso. Enquanto leio, ouço os passarinhos que por ali cirandam, sim porque uma fêmea tinha as suas crias ali pertinho de mim e voava, voava, executando a lide doméstica.

Um mergulho no passado
Um mergulho no passado
o meu local de leitura
o meu local de leitura
A Fábrica da Cortiça e uma história sobre os conflitos sociais no início do Sec. XX
A Fábrica da Cortiça e uma história sobre os conflitos sociais no início do Sec. XX
O passarinho, lá ao fundo sobre a varanda, a minha companhia
O passarinho, lá ao fundo sobre a varanda, a minha companhia

vila flor

“Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.”

Sophia de Mello Breyner Andresen

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Vila Flor é um lugar geminado com a aldeia de Amieira do Tejo e pertence ao concelho de Nisa. Este lugar, outrora bastante mais povoado, conta actualmente com de 3 famílias. Os terrenos à sua volta deixaram de ser cultivados na sua maioria. Alguns estão para venda e o da minha família está lá e tem sonhos. Sonha dar frutos, sonha dar legumes e sonha ser tratado como uma flor. É isso! Ele chama-se “Chão da Bocinha”. Não é bonito haver em Vila Flor um Chão da Bocinha?

Vila Flor
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uma manhã na horta

Eu e uma amiga encontramos o Sr. Manuel no mercado na passada Sexta feira vendendo fruta e legumes da sua horta quando de repente ele teve um desabafo connosco. Disse-nos que gostava tanto de ver a sua horta viçosa e cheia de cor, mas sozinho era muito difícil fazê-lo. Eu e a Aurélia olhámos uma para a outra e pensamos no mesmo!

Hoje de manhã eu, a Aurélia, a sua mãe e os seus dois filhos desenhamos linhas num pedaço de terra e alimentamo-la com feijões. Daqui a um tempo veremos o trabalho artístico que nascerá das mãos da Mãe Natureza, trabalho que o Sr. Manuel acompanhará com muito carinho.

Por volta do meio dia terminamos as nossas tarefas agrícolas e sentamo-nos a comer castanhas cozidas, bolos e a ouvir as histórias do Sr. Manuel. Trouxemos um maravilhoso pão com sementes que ele próprio cozeu no seu forno alimentado a lenha.

O pão foi a sua grande dádiva 🙂

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