Sem titulo

Um pedaço de terra alimentado com carinho, serviu de alimento a um fogo que cercou a nossa aldeia há dois dias. Lá cresciam árvores com histórias que eu fui recebendo de quem se cruzava comigo, outras foram compradas. Aquelas com as quais me liguei: o Azevinho que eu procurava, foi me oferecido por um senhor que tem um enorme e belo no seu quintal. A Ameixeira da Serra de São Mamede, deu ma um amigo que conheci na AJUDADA. Os Marmeleiros vieram de Mação da horta do pai de uma amiga, vila fustigada pelo fogo como a nossa aldeia. Os Sabugueiros vieram de uma aldeia da Serra da Estrela; um casal de jovens seniores, ajudou me a localiza-los e a recolher uns rebentos. Os Medronheiros vieram das encostas do Douro, quando fiz lá uma vindima. O Boldo, o Coqueiro, a Frisalis, ofertas recentes de amigas. Encontrei esta forma de luto, escrevendo aqui sobre estas vidas verdes e silenciosas, vidas que se agarram à terra onde crescem, ondem morrem.

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A minha viagem até ao deserto foi numa onda de música berbere.

Na estrada passei por homens construindo as suas próprias casas em adobe e cob,
na estrada passei por mulheres colhendo cereais,
na estrada passei por rapazes montados em bicicletas e burros transportando alimento verde para os animais,
da estrada vi mulheres lavando roupas no rio Draa,
da estrada vi canais que acompanhavam a estrada orientando o percurso da água até aos variados destinos de terras semeadas manualmente,
da estrada vi tapetes de lã encostados nas montanhas,
da estrada vi homens sentados encostados à sombra dos muros,
da estrada vi homens rezando numa posição de rendição devocional,
da estrada vi mulheres transportando os filhos seguros por um mai tai,
da estrada vi mulheres carregando em suas costas sacas que ultrapassavam a sua altura,
da estrada vi grupos de crianças felizes caminhando para a escola,
da estrada vi cercas construídas com bambu ou ramagens secas dividindo pedaços de terra,
da estrada vi majestosas montanhas e vales profundos,
da estrada vi largos leitos por onde passam estreitos fios de água espremidos pelas montanhas,
da estrada vi árvores que adormeceram na terra que as segurou em vida.
Cheguei ao caminho de terra que me levou até ao início do Saara. Fui guiada por Mohamed, um homem que passou parte da sua vida no deserto com a sua família, nómada, seguidor do alimento das cabras que também faziam parte da família. Contou-nos que deixou a vida que amava, porque o verde do deserto tão necessário aos animais foi escasseando. Hoje vive na cidade, mas assegura o transporte de camelo por entre pedras, terra e areia para turistas como eu.
Já instalada num local abrigado, foi ele que me serviu um chá,
foi ele que ajudou na confecção do jantar, tajine,
foi ele que tocou djambê e cantou para nós com os companheiros, todos à volta de uma cheirosa fogueira,
foi ele que, antes de dormir, nos levou para o escuro do deserto iluminado por um número infinito de estrelas e uma lua crescente e nos contou, num francês para que o entendêssemos, histórias de conflitos políticos entre Marrocos e Argélia, conflitos que separam famílias por uma fronteira intransponível por terra. Foi ele que nos tocou com um sentimento de paz, ao mesmo tempo que verbalizava a necessidade que temos uns dos outros, tal como o nosso coração necessita dos cinco dedos de uma mão.

No final deste nosso encontro, pedimos a Mohamed que tirasse uma fotografia connosco; eu fiquei numa extremidade, mas consegui sentir a sua vontade de tocar em todas nós com as suas mãos.