“Se eu pudesse trincar a terra toda 
E sentir-lhe um paladar, 
Seria mais feliz um momento … 
Mas eu nem sempre quero ser feliz. 
É preciso ser de vez em quando infeliz 
Para se poder ser natural… 
Nem tudo é dias de sol, 
E a chuva, quando falta muito, pede-se. 
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade 
Naturalmente, como quem não estranha 
Que haja montanhas e planícies 
E que haja rochedos e erva … 
O que é preciso é ser-se natural e calmo 
Na felicidade ou na infelicidade, 
Sentir como quem olha, 
Pensar como quem anda, 
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, 
E que o poente é belo e é bela a noite que fica… 
Assim é e assim seja …”
Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos”

O possível é o futuro do impossível

 

José Luís Peixoto escreveu o “possível sobre o “impossível”. Um texto maravilhoso!

“É tão bom ter a melhor ideia da vida. Mesmo que se tenha três ou quatro vezes por semana a melhor ideia da vida, é tão bom de cada vez que acontece. Ao encontrar-se um novo sentido, é o mundo todo que renasce. Uma boa ideia carrega em si o tamanho do mundo, uma espécie de felicidade incandescente.

A explosão de um fósforo: a ideia inicia-se num ponto. Existe um mistério essencial nesse instante que separa o nada de qualquer coisa. O nada é transparente, pode ser atravessado por gestos e preenchido. A ideia é qualquer coisa e, por isso, fascina, cativa a atenção, como as lareiras das manhãs de inverno. A ideia ateia-se, expande-se através do sentido. Uma ideia pode incendiar o mundo inteiro. Os exemplos são tantos, é desnecessário enumerá-los. As ideias são fogo, fazem corar as faces. Quando se tenta contar uma ideia, luta-se com os limites das palavras. Nesse momento, a esperança é que o outro se possa inclinar nas janelas dos nossos olhos e, descobrindo-se no alto de uma torre, possa ver tudo o que contêm, horizonte, distância.

Então, pode muito bem acontecer que o outro fique a olhar com o rosto impassível, anestesiado, pálpebras semidescaídas, até ao momento em que, perante o silêncio e a obrigação de se pronunciar, diz: não, acho que não vai correr bem. Nesse momento, há algo que nos é roubado. Perdemos as chaves de casa, estamos, de repente, numa cidade estrangeira, deixamos de saber quem somos. Nesse momento, há uma reação térmica, fogo versus gelo, e há um desapontamento sem direção. Não sabemos se estamos dececionados com o outro por não ter conseguido compreender o alcance da ideia que tentámos descrever, ou se estamos dececionados connosco próprios por não termos sido capazes de descrevê-la, ou se estamos dececionados com a ideia por não ser à prova de descrença. É como se perdêssemos para sempre algo insubstituível, um par de botões de punho que passaram de geração em geração.

Este é o momento de dizer a esses pessimistas disfarçados de prudentes, de racionais ou de razoáveis, que não. Dizemos não ao não deles. Quando nunca se tentou contradizê-los, parece difícil. As primeiras tentativas de resposta, magoadas, escorregam nas paredes da sua intransigência. Mas a prática demonstra que é incrivelmente fácil resistir-lhes, basta deixar que a sua descrença nos atravesse, basta transformá-la em silêncio, subtrair com uma seringa invisível todo o sentido à sua descrença, basta não acreditar nela. A sua deceção total e permanente para com o mundo não nos arrastará.

Além disso, o impossível deles, aquilo a que chamam “impossível” é a matéria a que aspiramos. Temos fome desse impossível e é nele que exercemos a nossa ação. Antes de serem possíveis, os telefones, os aviões ou os telecomandos eram impossíveis. Como é que alguém pode acreditar que duas pessoas sejam capazes de falar e ouvir-se a milhares de quilómetros de distância? Como é que alguém pode acreditar que máquinas a pesarem toneladas levantem voo carregadas de pessoas e atravessem oceanos? Como é que alguém pode acreditar que se possa apontar uma pequena caixa de plástico para um retângulo e, carregando em pequenos botões, se mude imagens em movimento na superfície desse retângulo, escolhendo entre dezenas de alternativas, que chegam por cabos enterrados no chão?

O impossível de antes sempre foi possível, apenas não tinha acontecido que alguém tivesse sido capaz de chegar até ele. Faltava a quantidade de pessoas que acreditaram, que perseguiram o filão até o demonstrarem e construírem. O mesmo acontece com o impossível de agora. O impossível de agora não deve ser muito diferente do impossível de antes. Por sua vez, o impossível mesmo impossível existia num e continua a existir no outro, mas como não pode ser distinguido do impossível que será possível no futuro, a hipótese mais criadora, aquela que propõe mais esperança é a que considera que tudo o que formos capazes de imaginar poderá ser materializado. Ou seja, todo o impossível poderá vir a ser possível. Assim, não há nenhum motivo para fazer cara de peido e dizer: não, acho que não vai correr bem. Em primeiro lugar, porque a imaginação expande o mundo, ou expande aquilo que somos capazes de ver nele, o que é a mesma coisa. Em segundo lugar porque é muito provável que o “correr mal” deles seja o nosso “correr bem”.”

José Luís Peixoto

É preferível iluminar que brilhar

 

“As estrelas brilham, as vedetas brilham, o ego brilha. Mas para fazeres uma diferença no mundo precisas de iluminar. O Sol ilumina.

Quem brilha mostra-se a si mesmo, quem ilumina mostra os outros. Tu podes seguir alguém brilhante ou alguém que ilumine. O primeiro está interessado em servir-se a si mesmo, o segundo em servir-te a ti.

Muitas pessoas procuram ser admiradas, que os olhos de todos estejam neles. Sabes o que acontece a quem olha para as estrelas? Cai no primeiro buraco que lhe aparece debaixo dos pés. Posso-te garantir que cairás em muitos desse buracos, tu mesmo, se seguires as estrelas e que, se te tornares uma, muitos cairão por tua causa.

Aprende como seguir o rasto de luz no caminho. O Sol não precisa de ser admirado, mas tu precisas de ver onde pões os pés. O Sol serve-te, não se serve de ti.

Se puderes, segue o teu caminho, iluminado por quem não está preocupado com o seu próprio brilho. E, se puderes, torna-te tu mesmo um sol para quem está à tua volta e ilumina tu os caminhos deles.

Trata de ser feliz… ilumina-me!”
João Monge Ferreira

Coexistir

 

 

Por vezes são caminhos que demoram o seu tempo a percorrer, mas eu não esqueço de seguir as pegadas de  alguns dos meus sonhos.

Há 8 anos aproximei-me do local onde respiram as minhas raízes e cada vez mais sinto a sua proximidade.

Ontem fui visitar, pela 3ª vez, um pedaço de terra com cerca e 1 ha, só que desta vez entrei.

Logo na primeira visita senti que eu e aquele pedaço nos abraçámos mutuamente. Ao seu redor reinava o silêncio, olhando para o alto avistei um castelo e a serra à minha volta, o rasto da humidade  que se fazia sentir depois da chuva dava um poder aromático a tudo o que era silvestre, a atmosfera límpida deu asas à minha imaginação ao observar quatro paredes de pedra que se erguiam, num pequeno monte de terra, formando uma pequena casa rústica de 20 m2. Não havia nem água canalizada, nem luz eléctrica…virgem!

Ontem quando lá voltei e entrei, tive uma companhia inesperada! Cruzei-me com estas ovelhas. O medo que sentimos foi mútuo. Elas fugiram, eu parei, depois elas também pararam e ficaram a olhar para mim e para quem ia à minha frente. O que teriam pensado ao ficarem paradas a observar-nos? Achei cómica aquela situação. Por isso tirei o meu telemóvel da mochila e fotografei-as. Se algum dia eu viesse a viver ali seria igualmente bom chegar a casa, passar entre as ovelhas, observá-las, deixar-me observar, ir à minha vida e elas à delas.

acerca da felicidade

 

Gosto muito de ler Pedro Chagas Freitas por narrar aspectos importantes da vida quotidiana de uma forma que parece tão fácil concretizar:

“Eu sou Deus. Eu sou Deus porque faço – todos os dias, incansavelmente, até à pura (mesmo que com “t) da demência, até à mais absoluta loucura, até me faltarem as forças, até não haver nem mais um pedaço da minha alma e do meu corpo e do que quer que seja eu e aquilo que me faz eu – tudo o que posso para fazer feliz quem está à minha volta. Tudo. Tudo. E é isso, fazer tudo, sem perder tempo com merdas e com merdinhas e com merdiquinhas, para fazer feliz quem está à volta que é ser Deus. É essa a minha forma de Deus. É essa a única forma de Deus que faz, aqui nesta terra que nos deram para viver, a diferença.”

Excerto do livro (que eu ainda não li): “Eu Sou Deus”

Se estiverem interessados ele também escreveu sobre a “infelicidade“…

Foi por causa desta canção que eu descobri “Eu Sou Deus” diz Pedro Chagas Freitas

Le Grand Montaigne

 

Há pouco, quando estávamos a jantar, a minha filha, que vai ter a disciplina de Filosofia pela primeira vez no próximo ano lectivo, perguntou-me do que tratava a disciplina de Filosofia. Eu respondi-lhe com uma pergunta:

– Para ti, o que significa “Eu só sei que nada sei?”

ela respondeu:

– Quanto mais conhecimentos nós temos, mais sabemos que não temos respostas.

Depois perguntou-me o que significava aquela frase para mim. Eu respondi propositadamente da seguinte forma:

– Quem pensa que tudo sabe, fecha as portas ao conhecimento.

Depois expliquei-lhe que, para mim, Filosofia é um desafio, pois obriga-nos a sair da nossa zona de conforto, ficamos cheios de dúvidas e, tal como a Matemática, ela  treina o nosso  pensamento na procura de soluções perante situações mais ou menos complexas do nosso dia a dia.

Neste últimos dois dias tenho reflectido muito sobre a felicidade, sobre o estado da educação, sobre a politica, sobre  as características prisioneiras e castradoras da nossa sociedade, sobre meu trabalho, sobre o desânimo, sobre as minhas incertezas. Mas, hoje ao fim do dia, depois de uma sequência de bons momentos, lá me fui erguendo.

Aqui sentada, procurei os meus amigos filósofos e fiquei a ouvir um.

Há uma ano atrás, Séneca foi meu companheiro na compreensão da “Ira”, hoje, encontrei Montaigne que me fez uma festinha na auto estima.

Desejo que a minha filha tenha um Filósofo como Professor.