“Se eu pudesse trincar a terra toda 
E sentir-lhe um paladar, 
Seria mais feliz um momento … 
Mas eu nem sempre quero ser feliz. 
É preciso ser de vez em quando infeliz 
Para se poder ser natural… 
Nem tudo é dias de sol, 
E a chuva, quando falta muito, pede-se. 
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade 
Naturalmente, como quem não estranha 
Que haja montanhas e planícies 
E que haja rochedos e erva … 
O que é preciso é ser-se natural e calmo 
Na felicidade ou na infelicidade, 
Sentir como quem olha, 
Pensar como quem anda, 
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, 
E que o poente é belo e é bela a noite que fica… 
Assim é e assim seja …”
Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos”

Viagem

“Kalevala”, um importante livro finlandês escrito por Elias Lönnrot, um médico rural do séc. XIX, foi traduzido há poucos anos para português! Um tesouro para o seu povo, como os Lusíadas para nós. Uma epopeia que ilustra a cultura que originou os poemas. 
Descobri-o, agora que procuro curiosidades sobre a Finlândia: palavras, paisagens e música…
Lá, nesse norte da Terra, na Lapónia Finlandesa, na linha imaginária à qual se deu o nome de Círculo Polar Ártico, ficarei muito próxima dos Gelos Eternos!!!… Nesse momento, sentirei Gratidão por me ter sido dada a oportunidade de contemplar a Vida daquela Natureza.

Partilho convosco um maravilhoso excerto do Canto I do longo poema épico Kalevala. Confesso que, quando li estas palavras, fui levada por um sonho até uma memória onde tudo isto me parecia real…:

“Canções que o meu pai cantava
ao talhar o cabo do machado;
canções que a mãe ensinava
ao passar a lã pelo fuso, 
eu pequenino no chão
a ver o joelho mexer,
pobre babado de leite,
sujo de soro, pequeno. 
Ao Sampo palavras sobravam,
a Louhi os sortilégios: 
o Sampo envelheceu nas palavras
Louhi nos sortilégios sumiu,
Vipunen nos lais morreu,
Lemminkäinen em diabruras.
Há ainda outras palavras
são mágicas, da tradição: 
nos caminhos recolhidas,
do meio da urze arrancadas,
dos galhos secos puxadas,
de árvores novas tiradas,
pelo feno afagadas,
dessas vielas rasgadas, 
quando a pastorear seguia
com o gado nas pastagens, 
na riqueza da turfeira,
pequenos montes dourados,
atrás da Muurikki negra, 
da Kimmo de muitas cores.
Cantos o frio recitou, 
a chuva poemas me disse. 
Canções os ventos trouxeram, 
outras as ondas do mar. 
O planar das aves, palavras, 
frases as copas das árvores. 
Com elas o novelo fiz, 
arranjadas enrolei. 
No trenó pus o novelo,
no trenel novelo meti;
no trenó para casa o levei, 
no trenel para o celeiro,
a um canto ali o deixei,
numa caixinha de cobre.
Semanas ao frio ficou, 
por muito tempo o esqueci.
Tirarei do frio os cânticos, 
do gelo as canções extraio, 
para o lar a caixa levo, 
sobre o banco a caixa deixo,
debaixo da trave mestra,
por baixo do belo tecto 
abro a arca das palavras, 
começo então a cantar, 
o novelo a desenrolar, 
os seus nós desatarei? 
O canto bom cantarei, 
canção tão bela que ecoe, 
de comida do centeio
ou da cerveja do malte.
Se cerveja não houver,
o malte não me oferecerem,
com magra boca direi, 
com água só cantarei
para a nossa noite alegrar,
para a luz do dia honrar,
para o prazer de amanhã
a manhã que ora começa.”

A minha estreia

Hoje às 10:30 horas contei uma história a um grupo de crianças na biblioteca da vila de Monforte.

O Zé, meu marido desenhou os 3 espaços onde decorre esta história

A rua
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A mansão
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O sótão
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A minha filha Carolina, para quem eu escrevi esta história, fez um slideshow com os desenhos do pai e foi ela quem me acompanhou hoje à biblioteca para ouvir também a sua história por mim contada ao público infantil, pela primeira vez. Os slides passavam à medida que a história mudava de espaço.
O Tareco escritor e o Cinza cantor

A história demora cerca 15 minutos a contar e eu estava com receio que as crianças se aborrecessem. Pensava eu também que iriam poucos e, por isso, só tinha disposto cerca de 6 cadeiras perto de mim.
Qual é o meu espanto quando vejo entrar um grupo de 6, depois mais 3, mais 4, mais 1, mais 5…tivemos que ir alargando o circulo e dispor mais cadeiras à medida que as crianças iam chegando. Eu esqueci-me de as contar, mas penso que seriam cerca de 25. Ouviram-me do princípio ao fim e foram adivinhando o que se passaria a seguir, pois eu ia perguntando. Foi tão bom contar esta história em voz alta! Quando terminei, as crianças agradeceram-me cantando em coro uma canção, uma canção de agradecimento que eu não conhecia! Tive tanta pena de não ficar com este momento registado! tanta pena!

Foi super emocionante sentir que estas crianças entre os 6 e os 12 anos gostaram de ouvir a minha história sobre a Amizade.

No final da história disse-lhes que gostaria de levar uma recordação de cada um deles e pedi-lhes que escrevessem uma história, um poema ou fizessem um desenho sobre a Amizade. Fiquei sem palavras! Mostro-vos dois exemplos:

Descobrimos duas poetisas, a Ana Margarida e a Débora:

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E um menino, o Ricardo, descobriu a “moral da história”:”A Amizade é podermos ser diferentes, pois somos especiais como somos”
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Agora, deixo-vos com a minha história com algumas diferenças relativamente àquela que eu escrevi para a Carolina, pois senti necessidade de a adaptar a este público mais novinho.

O Tareco escritor e o Cinza cantor

Numa noite de temporal, ouviu-se um barulho numa rua de uma cidade chamada “Bem-Me-Quer”. Que barulho seria aquele? De repente, um bichinho que embora não conseguisse abrir os olhos por ser ainda tão pequenino, procurava desesperadamente uma maneira para sair dentro do caixote do lixo. Ali ele não podia continuar, porque quase não conseguia respirar. Pôs as suas pequeninas garras de fora e esgravatou por entre o lixo até se conseguir libertar. Cheirava mal…garrafas, sapatos rotos… ele fazia parte daquele lixo, daquele lixo derrubado pelo vendaval numa noite de temporal.
– Acooorda!!! – disse-lhe o Cinza.
– Oh não, outra vez aquele pesadelo! Nunca mais me livro dele! – exclamou o Tareco
O Cinza era um ratinho que naquela noite procurava comida, quando um caixote do lixo caiu ao seu lado, fazendo um grande estrondo. Assustado, ouviu uma chiadeira terrível saindo da boca do caixote e escondeu-se atrás da roda de um carro. Espreitando, viu o que lhe parecia ser um ratinho todo sujo. Correu até ele e, chegando perto, recuou logo em seguida.
– É um gato!!! O que faço? A minha mãe aconselhou-me a nunca me aproximar dum gato, pois é o nosso maior inimigo.
O gatinho olhou para ele igualmente assustado, pois este era o seu primeiro dia de vida em cima daquele passeio molhado e sujo como ele. O olhar de ambos gritou-lhes a primeira palavra, a palavra cujo significado mais tarde eles haveriam de conhecer. Sabes qual? A palavra “Amizade”.
– Faz hoje 6 anos, Cinza, que nos conhecemos. Começaste a chamar-me de Tareco, por eu nunca estar sossegado e só querer brincar. Salvaste-me naquela noite fria e ensinaste-me a viver na rua para conseguir sobreviver. Vivemos um ano na rua, lembras-te?
– Claclaclaro que me lembro! – respondeu o Cinza, um ratinho que tinha ficado gago por causa de um grande susto que apanhou. Um susto que eu vou agora contar-vos como aconteceu.
Ora bem, passado um ano de os dois se terem conhecido e depois de terem corrido todas as ruas da cidade, encontraram finalmente um abrigo. Uma mansão desabitada, situada numa linda avenida com muitas laranjeiras cobertas de flor. Naquela casa haviam vivido gatos, pois uma das portas traseiras tinha uma pequena entrada em forma de meio círculo para que eles entrassem e saíssem quando lhes apetecesse. Foi por lá que eles entraram. Depois de explorada a nova habitação e chegada a noite, o Cinza esburacou o colchão duma cama e passou a dormir aí. O Tareco escolheu dormir num sofá, mas não tinha poiso certo: ora dormia aqui, ora no tapete de lã estendido aos pés da cama do Cinza.
Um dia, um gatarrão felpudo e despenteado entrou por uma das janelas rés ao chão, cujo vidro estava partido. O Tareco tinha ido à rua procurar alimento e o Cinza tinha ficado a pôr a mesa. Quando ia buscar à cozinha umas latas de sardinha vazias que serviriam de pratos, foi surpreendido pelo bicho. Este lançou-se-lhe num salto e as suas garras, após várias tentativas, prenderam-lhe a cauda. O Cinza, desesperado, derrapava com as suas patinhas no chão da cozinha com toda a força que conseguia. Nisto chega o Tareco que, assim que vê o amigo em apuros, manda ao ar as lulas que tinha fanado no mercado e lança-se ao gatarrão. Enquanto lutavam, o Cinza aproveitou a confusão e libertou a sua cauda. Saltou para cima da mesa, pegou num jarro com água fria e atirou-a para cima do gatarrão. Este, que não gostava nada de água, quando a sentiu, oh patas para que te quero! Pegou nelas e fugiu! A primeira palavra que o Cinza emitiu depois daquela confusão foi “ conconcon”….e nada de concluir a palavra.
– Foge, meu! – disse o Tareco.
– O que se passa contigo? Engoliste a língua?
– Conconcon…seguímos!!! – repetiu o Cinza com relativo sucesso.
– Amigo, ficaste com a língua presa! Temos que ir à noitinha à farmácia procurar um remédio para a tua língua – disse-lhe o Tareco preocupado.
Trouxeram remédio para as aftas, desinfetante para a boca, pasta de dentes e nada, nada resultou. Nada soltou a pequena língua do ratinho Cinza, coitadinho…tinha ficado gago.
A vida continuou com os dias sempre passados da mesma forma. Já estavam aborrecidos por os dias serem sempre iguais. Andavam da cama para o sofá, do sofá para o tapete, do tapete para a cozinha, um passeio até à esquina, o saque duma comidinha, até que resolveram um dia à tarde, a medo, superar este terrível sentimento que os impedia há um tempo de empurrar uma porta, a porta do sótão e bisbilhotar o que ele guardava. Entraram e viram teias, pó adormecido no chão e nuns lençóis que cobriam uma coisa… cobriam o quê? Para satisfazer a sua curiosidade, puxaram com os seus dentes os lençóis e descobriram uma coisa grande com uns dentes pretos e brancos dos quais saia um som assim que o Cinza passava por cima deles. O que seria aquilo?
De um canto surgiu uma voz fininha e doce que disse:
– O que acabaram de descobrir chama-se Piano!
Pata-ante-pata, caminharam até ao canto de onde vinha a voz e apresentou-se-lhes uma aranha com uma dúzia de elegantes pernas.
– Aaaah! És então tu a artista de todos estes bordados espalhados por aqui? – perguntou o Tareco.
– Sim – disse ela timidamente – Há meses que bordo pautas de música na esperança de que alguém as preencha com a letra de uma canção. O som que ouviste, Cinza, foi a voz do Piano.
– Cocococomo te chamas? – perguntou Cinza.
– Carolina – respondeu ela.
Neste dia nasceu mais uma amizade, uma amizade entre um gato, um rato e uma aranha.
No dia seguinte, os dois amigos tomaram o pequeno-almoço rapidamente e subiram as escadas que terminavam na porta para o sótão. Entraram e admiraram as belas teias que ondulavam ao sabor do vento que corria por ali. Limparam o pó ao piano com um lençol e, admirando-o, disseram:
– É bonito!
Chamaram a Carolina e ela respondeu mesmo do cimo das suas cabeças. Estava a bordar outra teia. Os dois, curiosos por saber algo mais sobre o Piano, pediram à Carolina que lhes contasse a sua história. Ela desceu de um fio e poisou no banco que fazia par com o seu amigo Piano. O Tareco e o Cinza sentaram-se no chão para ouvir a história.
Ela começou assim:
– Nesta casa viveu uma família com muitas idades. Eram muitos e faziam desta casa uma casa alegre. As crianças corriam, escorregavam pelo corrimão desde lá de cima, ao fim-de-semana, cheirava a cozinhados assados no forno e a arroz doce e, ao Domingo à tarde, os amigos dos meninos juntavam-se cá e brincavam às escondidas. Infelizmente muitas das minhas amigas aranhas morreram esmagadas pelas empregadas cá da casa e viram destruídas as suas obras d’arte. Eu fugi cá para cima e escondi-me atrás daquela arca. Continuei a bordar as minhas teias, mas escolhi os sítios mais escondidos para que elas não as destruíssem. A filha dos senhores, a Beatriz, tocava músicas muito bonitas todas as noites depois do jantar. Tinha, na altura, 10 anos e os seus 10 dedos dançavam nesta barra preta e branca que vocês aqui veem que se chama teclado. Ela tocava muito bem e eu aprendi a tocar piano por ouvir a menina tantas vezes. Um dia consegui aprender a tocar a minha música preferida. Nos dias de chuva, toco-a sempre para que o meu amigo Piano fique feliz.
Para espanto dos dois amigos, começou a tocá-la com as suas pernas em cima das teclas. Estava dançando!… Quando terminou, fez-se silêncio, um silêncio deslumbrante. Sabem porquê? Porque o Cinza conhecia a letra daquela música. Ouviu-a muitas vezes quando frequentava uma escola de música à procura das migalhas que sobravam do lanche dos meninos músicos e cantores. Nunca chegou a conhecer pessoalmente quem cantava aquela canção, mas, naquele momento, teve vontade de cantá-la e cantou-a!
Magicamente! Vocês que estão a ouvir-me, sabem o que aconteceu magicamente? Magicamente ele soletrou, na perfeição, cada palavra daquela canção. E que voz linda ele tinha!
Quando o Cinza acabou de cantar ficou surpreendido e pensou:
– Quando eu canto não gaguejo! Estou curado!!
O Piano, a Carolina e o Tareco ficaram calados, mas todos ficaram a pensar no mesmo:
O que estaria a passar-se? Teriam a Carolina e o Piano um dom? E o Cinza também?
Todos concluíram que sim. O Cinza chorou e todos choraram, provocando um mar de lágrimas. Eram lágrimas de alegria…e cada uma delas foi caindo numa teia que ligava o pé do banco ao pé do Piano. Adormeceram.
Na manhã seguinte, a luz do sol que entrava pela janela acordou o Tareco. Ao acordar, olhou para a teia coberta de gotas de lágrimas e viu algo surpreendente e mágico. A teia do dia anterior estava diferente, estava enfeitada com umas bolhinhas transparentes que brilhavam com o sol. Mais surpreendido ficou quando viu que formavam uma palavra:
– “Vi-da” – leu ele.
– Vida! Foi o Cinza que me salvou a vida naquele dia em que eu estava misturado com o lixo! – exclamou.
Nisto, ele acordou a Carolina e pediu-lhe que lhe explicasse o que tinha acontecido à menina que tocava o Piano.
– Bem – começou ela – a menina começou a ficar doente. Não tinha força nas pernas, não conseguia manter-se de pé. Levaram-na para um hospital, para outro, para mais outro e a menina estava sempre na mesma. Até que partiram à procura da cura lá muito longe. Gastaram todo o dinheiro que tinham, mas não a conseguiram salvar. Foi uma tristeza quando voltaram. A primeira coisa que fizeram foi trazer o Piano para aqui e taparam-no para não o verem quando precisassem subir ao sótão. Uns meses depois, guardaram tudo e partiram desta casa. Tudo isto foi o Piano que me contou.
O Tareco lembrou-se novamente daquela palavra, “Vida”, lembrou-se também de quantos gatinhos já tinham morrido por não terem alguém que os salvasse e lembrou-se de como os seus pais que, tal como os pais da Beatriz, teriam já sofrido por terem visto os seus filhos partir tão novos. Interrogou-se então de que forma ele poderia ajudar alguém.
A Carolina dava vida ao Piano ao tocá-lo, o Piano dava vida à Carolina ao motivá-la para tecer pautas de música, o Piano e a Carolina deram uma nova vida ao Cinza ao permitir-lhe saber que, cantando, se sentia um rato mais feliz, um rato que não gaguejava. O Cinza devolveu-lhe a vida sendo seu amigo, amigo dum gato. E ele?
Ele descobrira aquela palavra…VIDA!
Numa noite, quando todos dormiam, o Tareco entrou no sótão e aproximou-se das teias. Olhou para elas atentamente e fez-se magia outra vez. Ele descobriu mais uma palavra, mais outra, saltou para outro canto, para o teto e memorizou todas as palavras que conseguiu ler nas teias que enfeitavam as paredes e os móveis. Juntou-as e escreveu um poema sobre a amizade. Com as suas unhas deixou-o gravado no chão de madeira. Escreveu também uma mensagem para os seus amigos, na qual pedia à Carolina que criasse uma música para o seu poema, que a tocasse no Piano e que o Cinza a cantasse. Partiu. Partiu à descoberta da vida, à descoberta de gatinhos que, como ele, estariam destinados a não viver se não aparecesse um amigo.
Ele sentiu-se tão feliz que nunca mais teve pesadelos.

Monforte, 25 de Março de 2013

“Um desabafo”, escreveu a minha avó

 

A minha avó sempre trabalhou na agricultura de subsistência. Viveu no Alentejo, numa aldeia e estudou só durante 4 anos. Lembro-me que além das tarefas agrícolas, costurava, cantava e escrevia. Adorava falar e, por isso, baptizaram-na com a alcunha de “Gargantada”. Escreveu versos dedicados à família, ao padre, ao padeiro, a todas as capelas existentes na aldeia…os seus versos estão escritos em folhas de papel de tal forma bem guardados, que eu e a minha irmã ainda não os encontrámos. Ontem, a minha irmã esteve na casa que pertenceu aos nossos avós, deu volta aos papeis e encontrou estes versos. A minha avó nunca gostou muito de culinária e, assim que abriu o Centro Social na sua aldeia, inscreveu-se para lá almoçar e jantar. Para ela, este serviço foi digno de um conjunto de versos!!!

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Vou traduzir:

Um Desabafo

Deus abençoe o senhor

que se lembrou dos velhinhos.

Se já tiver morrido

esteja cercado de anjinhos

Para os velhinhos comerem

ele formou o nosso lar.

Os santos velhos estão no museu

e os novos no altar.

Eu estou a comer no Lar

e ainda não me arrependi.

Muitas vezes, à sobremesa,

até nos dão um pudim.

E quando ao jantar

nos dão chá com bolachas,

 se isso não nos faltar,

damos a Deus muitas Graças.

O comer é com fartura

e muito bem feito.

A pessoa que disser mal

não deve ser bem perfeito.

Depois, do lado esquerdo da folha escreveu assim:

“Viva o Centro Social e viva quem nele come.Vivam as nossas cozinheiras que não nos deixam passar fome”

Maria da Conceição Alves “Gargantada”, 76 anos, Amieira do Tejo

Este verso foi escrito em 1985

A Porta

Eu sou feita de madeira
Madeira, matéria morta
Mas não há coisa no mundo
Mais viva do que uma porta.

Eu abro devagarinho
Pra passar o menininho
Eu abro bem com cuidado
Pra passar o namorado
Eu abro bem prazenteira
Pra passar a cozinheira
Eu abro de supetão
Pra passar o capitão.

Só não abro pra essa gente
Que diz (a mim bem me importa…)
Que se uma pessoa é burra
É burra como uma porta.

Eu sou muito inteligente!
Eu fecho a frente da casa
Fecho a frente do quartel
Fecho tudo nesse mundo
Só vivo aberta no céu!

Vinicius de Moraes

Achei esta adorável porta no meio de Marvão. Eu quero ter uma porta assim!…

Oração

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.

Natália Correia