Vínhamos na estrada, de volta a casa, olho para o céu e uma aurora boreal dançava! Foi no dia 5 de Setembro. Enveredamos por uma estrada de campo e parámos num local com duas casas, quase sem luz artificial, e contemplamos lindos desenhos coloridos, uns que que se formavam e outros que se desvaneciam. O termómetro marcava 2 graus. O céu estava repleto de estrelas. A Lua, essa, dormia.

Um dia na Lapónia que não iremos esquecer!! Eu e a minha amiga estamos ali, olhando o céu deste local maravilhoso do nosso planeta!

Viagem

“Kalevala”, um importante livro finlandês escrito por Elias Lönnrot, um médico rural do séc. XIX, foi traduzido há poucos anos para português! Um tesouro para o seu povo, como os Lusíadas para nós. Uma epopeia que ilustra a cultura que originou os poemas. 
Descobri-o, agora que procuro curiosidades sobre a Finlândia: palavras, paisagens e música…
Lá, nesse norte da Terra, na Lapónia Finlandesa, na linha imaginária à qual se deu o nome de Círculo Polar Ártico, ficarei muito próxima dos Gelos Eternos!!!… Nesse momento, sentirei Gratidão por me ter sido dada a oportunidade de contemplar a Vida daquela Natureza.

Partilho convosco um maravilhoso excerto do Canto I do longo poema épico Kalevala. Confesso que, quando li estas palavras, fui levada por um sonho até uma memória onde tudo isto me parecia real…:

“Canções que o meu pai cantava
ao talhar o cabo do machado;
canções que a mãe ensinava
ao passar a lã pelo fuso, 
eu pequenino no chão
a ver o joelho mexer,
pobre babado de leite,
sujo de soro, pequeno. 
Ao Sampo palavras sobravam,
a Louhi os sortilégios: 
o Sampo envelheceu nas palavras
Louhi nos sortilégios sumiu,
Vipunen nos lais morreu,
Lemminkäinen em diabruras.
Há ainda outras palavras
são mágicas, da tradição: 
nos caminhos recolhidas,
do meio da urze arrancadas,
dos galhos secos puxadas,
de árvores novas tiradas,
pelo feno afagadas,
dessas vielas rasgadas, 
quando a pastorear seguia
com o gado nas pastagens, 
na riqueza da turfeira,
pequenos montes dourados,
atrás da Muurikki negra, 
da Kimmo de muitas cores.
Cantos o frio recitou, 
a chuva poemas me disse. 
Canções os ventos trouxeram, 
outras as ondas do mar. 
O planar das aves, palavras, 
frases as copas das árvores. 
Com elas o novelo fiz, 
arranjadas enrolei. 
No trenó pus o novelo,
no trenel novelo meti;
no trenó para casa o levei, 
no trenel para o celeiro,
a um canto ali o deixei,
numa caixinha de cobre.
Semanas ao frio ficou, 
por muito tempo o esqueci.
Tirarei do frio os cânticos, 
do gelo as canções extraio, 
para o lar a caixa levo, 
sobre o banco a caixa deixo,
debaixo da trave mestra,
por baixo do belo tecto 
abro a arca das palavras, 
começo então a cantar, 
o novelo a desenrolar, 
os seus nós desatarei? 
O canto bom cantarei, 
canção tão bela que ecoe, 
de comida do centeio
ou da cerveja do malte.
Se cerveja não houver,
o malte não me oferecerem,
com magra boca direi, 
com água só cantarei
para a nossa noite alegrar,
para a luz do dia honrar,
para o prazer de amanhã
a manhã que ora começa.”

o esboço

 

“É escusado sonhar que se bebe; quando a sede aperta, é preciso acordar para beber.”

Sigmund Freud

Algo interno me empurra para uma mudança. Sinto necessidade de aprender ou de aperfeiçoar uma arte. Acho que estou a precisar de um refúgio artístico…

Obriguei-me a escrever sobre este assunto aqui, neste meu Blog, porque talvez assim o auto- desencorajamento não me roube a energia.

O meu trabalho tem sido, desde há 23 anos, encorajar pessoas a não deixar de aprender, a não descuidar o seu processo de aprendizagem ao longo da vida. Por outro lado, com estas pessoas tenho aprendido a desenvolver competências na “arte do atendimento” (um processo de aprendizagem que não tem fim, porque cada pessoa é única).

Como o meu dia-a-dia é conversar com pessoas que estão desempregadas e com jovens que abandonaram a escola e procuram alternativas àquela, começo a sentir, aos 48 anos, necessidade de encontrar um refúgio artístico, um refúgio que me permita estar sozinha por alguns momentos.

Na semana passada estive a conversar com uma jovem licenciada em Serviço Social que viveu alguns anos na Bulgária. Voltou este Verão para Portugal e começou a frequentar uma segunda licenciatura denominada “Educação Artística”. Quando eu ouvi este nome “arrebitei logo as minhas orelhas”. Consultei o plano de estudos deste curso o qual me entusiasmou e guardei-o numa gaveta mental… Ontem procurei informações cursos de “Escrita Criativa”. Guardei-os também numa outra gaveta mental…

Tenho um sonho carinhosamente guardado que vou visitar de vez em quando, mas volto sempre a guardá-lo… gostaria de criar uma determinada textura em tecido, ainda não sei qual, com a ajuda de um tear de madeira. Depois, gostaria de tingir esses tecidos com cores extraídas de plantas cultivadas por mim, cores que eu comporia num laboratório artesanal.

Este é o esboço de um sonho antigo. Gostaria de o começar a decompor, projectar e agir. Será?