“Se eu pudesse trincar a terra toda 
E sentir-lhe um paladar, 
Seria mais feliz um momento … 
Mas eu nem sempre quero ser feliz. 
É preciso ser de vez em quando infeliz 
Para se poder ser natural… 
Nem tudo é dias de sol, 
E a chuva, quando falta muito, pede-se. 
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade 
Naturalmente, como quem não estranha 
Que haja montanhas e planícies 
E que haja rochedos e erva … 
O que é preciso é ser-se natural e calmo 
Na felicidade ou na infelicidade, 
Sentir como quem olha, 
Pensar como quem anda, 
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, 
E que o poente é belo e é bela a noite que fica… 
Assim é e assim seja …”
Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos”

Vincent Van Gogh imaginou uma Torre nos campos, talvez nos mesmos campos onde os homens tentaram construir a conhecida Torre de Babel nos primórdios da Humanidade. Nesse tempo estavam os homens construindo uma grande Torre na Mesopotâmia, uma Torre que chegasse ao céu, perto dos Deuses, e onde todos pudessem viver, quando um Deus zangado com a ambição dos homens lança a confusão! Desce dos seus aposentos, vê esta enorme obra e, com um sopro, destrói-a!!! Os homens e mulheres que, nessa altura, falavam todos a mesma língua, que viviam em harmonia e que desejavam tanto crescer e ver crescer os seus descendentes ali, na zona do Crescente Fértil, viram-se privados desse sonho, porque esse Deus ao chegar à Torre, ao mesmo tempo que a destrói, confunde a língua dos homens para que estes se deixassem de entender e dispersa a Humanidade pelos cantos da Terra. A Torre de Babel ficou inacabada, e, os homens, confundidos e dispersos. Muitas histórias aconteceram por esses 4 cantos do Mundo até que chegámos há 10 mil anos atrás, época em que se presume ter sido descoberta a agricultura:“(…) uma equipa de cientistas liderada pela Universidade de Mainz descobriu que vários grupos de pessoas praticavam a agricultura no Crescente Fértil e que essas pessoas eram geneticamente muito diferentes umas das outras. Ou seja, os grupos não se misturaram durante milhares de anos (…)”. Ao ler isto pensei: será que os homens e mulheres obrigados a dispersarem-se conseguiram voltar à Mesopotâmia? Ter-se-ão reencontrado para aprenderem em comunhão a Linguagem da Agricultura? Estaria nos seus genes a necessidade de voltar a casa através de uma linguagem que não se perdeu, embora cada um falasse a sua língua? 
Entretanto o tempo continuou a passar, os homens voltaram a dispersar-se…voltou a confusão que teimosamente se mantém presente… e o Futuro? A força da união marcada nos nossos genes voltará a sentir-se como se de uma semente se tratasse? Num voo interminável?

 

A força no feminino

Em 2014 andei pela cidade de Portalegre e pela Serra de São Mamede à procura de senhoras com 70, 80, 90 anos que gostassem de partilhar comigo as suas histórias de vida. São mulheres ex. operárias de uma fábrica de lanifícios de de uma fábrica de cortiça, ambas encerradas pelo desenvolvimento económico. Também conversei com as tecedeiras já reformadas que teceram as mais lindas tapeçarias do mundo e com as trabalhadoras rurais, que agoram descansam daquele trabalho árduo, mas no qual se sentiram felizes. Já escrevi todas as histórias, são mais de 30! A minha amiga Marta acompanhou-me e fotografou-as. Talvez um dia editemos um livro ilustrado com as hitórias destas valentes mulheres!                                                     http://aldeia-de-gralhas.typepad.fr/mon_weblog/2016/04/hist%C3%B3rias-de-vida-projeto-de-mar%C3%ADlia-ribeiro-e-marta-nunes.html

a Cidade e a Serra são Mulheres

Iniciei uma história que eu gostava que me acompanhasse até ela querer. Não trabalharei à sexta feira durante uns meses e vou dar o tempo desse meu dia, porque há um ano aprendi que o Tempo é o Bem mais precioso que temos para dar. Pretendo partilhar esse meu dia com gente do povo, gente que trabalhou nas industrias importantes desta cidade onde hoje eu vivo e gente que trabalhou nos campos desta serra maravilhosa, a Serra de São Mamede. Vou dedicar-me às mulheres, hoje reformadas e que, com a sua força de trabalho, contribuíram para a vida desta cidade e desta serra. Vou tentar descobrir onde elas estão com a ajuda de alguns amigos e familiares e depois vou convidá-las a contar as suas histórias para mim. Vou ouvi-las atentamente e escrevê-las. Porquê? porque eu gostaria muito de escrever histórias sobre estas mulheres importantes, as mulheres do povo.

Por enquanto fecho-me na biblioteca da cidade e procuro literatura a seu respeito e a respeito da serra, mas leio ao ar livre nos Claustros de um lindo Convento ao qual a biblioteca dá acesso. Enquanto leio, ouço os passarinhos que por ali cirandam, sim porque uma fêmea tinha as suas crias ali pertinho de mim e voava, voava, executando a lide doméstica.

Um mergulho no passado
Um mergulho no passado
o meu local de leitura
o meu local de leitura
A Fábrica da Cortiça e uma história sobre os conflitos sociais no início do Sec. XX
A Fábrica da Cortiça e uma história sobre os conflitos sociais no início do Sec. XX
O passarinho, lá ao fundo sobre a varanda, a minha companhia
O passarinho, lá ao fundo sobre a varanda, a minha companhia

2013

Há um ano entrei em 2013 por uma ponte em londres, ouvindo o sino da torre contar a meia noite, muita gente, muitas luzes no céu, alegria, ohs de espanto que apreciavam aquela beleza de céu enfeitada e depois, depois voltei ao interior do meu país onde o verão é extremo e o inverno também, à sua dureza da qual há gente que foge.

Mas foi aqui neste interior que eu encontrei mais um novo círculo de amigos, amigos que acreditam que o futuro deste planeta está naquilo que a Natureza sempre nos mostrou: a Dádiva e a Partilha. não é o que Ela tem feito toda a Vida? e lá fomos ajudando, todos em conjunto, lá fomos ajudando a que a AJUDADA acontecesse em portalegre.

Aprendi a olhar a terra, o que dela nasce e seus ciclos com outros olhos (ensinaram-me);aprendi a dançar danças do mundo (ensinaram-me); iniciei, muito do início a minha aprendizagem pelo mundo do yoga e da meditação (ensinaram-me), passei um frio muito agradável na serra de são mamede em noites de outono e de inverno olhando as estrelas, conheci boa musica e constatei que há gente jovem que faz um esforço para não deixar morrer as tradições.

No trabalho, algumas das amizades que aqui criámos ao longo dos anos afastaram-se no espaço geográfico, mas ficaram os laços. Tenho saudades de trabalhar com eles(as)…

Contei uma história criada por mim para um grupo de crianças, uma experiência inesquecível!! Dei-lhe a forma de um livro, ofereci-o à biblioteca onde foi contado o conto e guardei outro exemplar para a minha filha, porque o conto foi feito para ela.

No meio do ano fiz umas férias tranquilas à beira mar no sul de portugal. Também conheci outro mar, um mar mais quente no sul de itália e um clima que torrava as narinas. Vivi um ambiente bem familiar duma grande família italiana através da minha amiga Amélia que costuma lá passar férias. Em novembro abri as portas ao meu meio século e o meu marido e os meus dois filhos marcaram-no oferecendo-me o carro dos meus sonhos: um Citroen 2Cv amarelinho!celebrei o meu aniversário no coração de lisboa com os meus amigos de há anos… os amigos de pequenina, sim, também, sabemos o caminho da nossa amizade … e com a minha pequena família. O natal passámo-lo num local que há muito tempo estava fechado nesta época, a casa dos meus avós e da minha mãe. Foi um natal, simples e bonito iluminado pela luz das velas, pois neste inverno que lá é sempre muito mais frio, houve um temporal que levou a luz eléctrica que a calma só trouxe de madrugada. Contei duas histórias de dois livros infantis que tinha comprado para o João e para a Carolina na editora bruaá que veio a portalegre fazer uma apresentação. Os livros “O Urso e o Gato Selvagem” e o “Jardim de Babai” ilustravam, assim que os ouvi ler pelo seu editor naquele dia em portalegre, a essência do natal: o bem querer pelo que nos rodeia e o seu cuidado.

Hoje é dia 31. Está um dia chuvoso e frigidíssimo, um dia de inverno como se quer! Até amanhã.

Dia 24 de Junho.

A minha mãe faria anos nesse dia e, se ela estivesse viva estaríamos a comemorá-los com certeza. Não sei por que terminou assim aquele dia…e como é a 3ª vez que eu venho aqui compor este texto, sinto agora que não há que fazer esforço para entender.

Nesse dia tinha combinado ir ao cinema com duas amigas ver o “Feiticeiro de Oz”. Deixei o Zé à porta da Escola de Dança e conduzi até ao parque de estacionamento da antiga e emblemática fábrica de cortiça “Robinson” agora encerrada e em ruínas, ruínas pelas quais me apaixonei quando há pouco tempo as visitei. Saí do carro, certifiquei-me que o tinha fechado e começo a descer. Lá do cima da rua verifiquei que o Centro de Artes e Espectáculos estava com muita gente à porta recebendo o calor da noite de Verão antes que o filme começasse. Ponho o pé na passadeira para atravessar a estrada e sinto um silêncio, um silêncio igual àquele que tinha sentido pela manhã. De repente, quando eu estava no fim da passadeira, este silencio é interrompido por uma pancada. Algo bate-me e derruba-me e arrasta-me pelo chão. Enquanto durou este arrastão eu pensava “NÃO, isto não pode estar a acontecer-me outra vez!!”. Estava zangada com a Vida, apetecia-me a discutir com ela!! Quando parei, vi uma mota do meu lado caída e percebi que tinha sido atropelada por quem a conduzia. Deitada no chão, muita gente ao meu redor fazia-me perguntas, algumas pessoas conhecidas chegavam e tranquilizavam-me e mais uma vez senti aquela angustia da incerteza: será que me aconteceu algo de grave?

Sinto que não me aconteceu nada de grave. Estou tranquila, desde ontem.

Há pessoas que se cruzam connosco de uma forma abrupta e dolorosa e outras, bem pelo contrario, cruza-se connosco de uma forma suave e calorosa. Aquele choque que aconteceu, foi um choque que interrompeu um silêncio absoluto que eu estava vivendo naquele momento em que atravessava a passadeira.

Neste momento gostava de ter jeito para pintar, gostava de expressar a imagem que esta vivência me sugere. Talvez o faça…mesmo sem jeito para pintar.