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A minha viagem até ao deserto foi numa onda de música berbere.

Na estrada passei por homens construindo as suas próprias casas em adobe e cob,
na estrada passei por mulheres colhendo cereais,
na estrada passei por rapazes montados em bicicletas e burros transportando alimento verde para os animais,
da estrada vi mulheres lavando roupas no rio Draa,
da estrada vi canais que acompanhavam a estrada orientando o percurso da água até aos variados destinos de terras semeadas manualmente,
da estrada vi tapetes de lã encostados nas montanhas,
da estrada vi homens sentados encostados à sombra dos muros,
da estrada vi homens rezando numa posição de rendição devocional,
da estrada vi mulheres transportando os filhos seguros por um mai tai,
da estrada vi mulheres carregando em suas costas sacas que ultrapassavam a sua altura,
da estrada vi grupos de crianças felizes caminhando para a escola,
da estrada vi cercas construídas com bambu ou ramagens secas dividindo pedaços de terra,
da estrada vi majestosas montanhas e vales profundos,
da estrada vi largos leitos por onde passam estreitos fios de água espremidos pelas montanhas,
da estrada vi árvores que adormeceram na terra que as segurou em vida.
Cheguei ao caminho de terra que me levou até ao início do Saara. Fui guiada por Mohamed, um homem que passou parte da sua vida no deserto com a sua família, nómada, seguidor do alimento das cabras que também faziam parte da família. Contou-nos que deixou a vida que amava, porque o verde do deserto tão necessário aos animais foi escasseando. Hoje vive na cidade, mas assegura o transporte de camelo por entre pedras, terra e areia para turistas como eu.
Já instalada num local abrigado, foi ele que me serviu um chá,
foi ele que ajudou na confecção do jantar, tajine,
foi ele que tocou djambê e cantou para nós com os companheiros, todos à volta de uma cheirosa fogueira,
foi ele que, antes de dormir, nos levou para o escuro do deserto iluminado por um número infinito de estrelas e uma lua crescente e nos contou, num francês para que o entendêssemos, histórias de conflitos políticos entre Marrocos e Argélia, conflitos que separam famílias por uma fronteira intransponível por terra. Foi ele que nos tocou com um sentimento de paz, ao mesmo tempo que verbalizava a necessidade que temos uns dos outros, tal como o nosso coração necessita dos cinco dedos de uma mão.

No final deste nosso encontro, pedimos a Mohamed que tirasse uma fotografia connosco; eu fiquei numa extremidade, mas consegui sentir a sua vontade de tocar em todas nós com as suas mãos.

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a arte de perder

a arte de perder

Ontem sai mais cedo do sítio onde trabalho, queria chegar a tempo de ver a história de Alice. Tinha sido convidada por uma amiga para ver aquele filme que, segundo ela, retratava uma vida que “cavava bem fundo em nós”, mas não sabia mais nada, fui levada pela curiosidade e pela vontade de descobrir mais um pouco do desconhecido que habita em mim. Na minha mesa deixara a leitura inacabada de uma autobiografia na página onde está escrito: “Alzheimer”. Esta autobiografia foi escrita por a uma senhora que trabalha num Lar, uma senhora que eu acompanho. Hoje, ao retomar a leitura da autobiografia, não passei da primeira página, pois a descrição dos sintomas daquela doença levaram-me até ontem. Descansei as minhas costas na cadeira, rebobinei a história de Alice, neurolinguista e professora universitária que se depara precocemente com aquela doença, e deixei que imagens sobre “estou aprendendo a arte de perder todos os dias” ocupassem o meu pensamento durante uns minutos.
Deixo-vos a cena final de “Para Sempre Alice”, porque nada se perde para sempre…